Com a premissa de revisitar a viagem que seu pai havia feito nos anos 70, quando emigrou para França, Elmano Sancho, autor e intérprete da obra, procurou descobrir peças perdidas nesse processo de deslocação da terra em que se nasce, para uma outra onde se almeja a prosperidade. O arrancar das raízes na esperança de as replantar em solos mais férteis, num processo de adaptação complexo.
Elmano passou de uma concretização individual do projeto, a partilhá-lo com Shahd Wadi, depois de a escutar, por acaso, numa entrevista em que comentava o seu sonho de regressar à Palestina, sua terra de origem. Dois pontos de partida distintos, que se cruzam com a vontade de “se encontrarem”.
Como já referido, Elmano Sancho foi o responsável pela dramaturgia e encenação da peça, ao mesmo tempo que partilha a interpretação com Shahd Wadi. A assistência de encenação ficou a cargo de Paulo Lage.
Admito que a temática abordada é interessante e as duas perspetivas, apesar de distintas, seguem em harmonia. No entanto, confesso que fiquei entediado com as opções cénicas. Longos discursos monocórdicos, pouca movimentação, um ambiente escurecido e uma certa dificuldade em compreender os áudios da projeção, foram alguns dos tópicos que me levaram a desconectar com a obra.
Quero destacar um efeito de transição que funcionou muito bem, que foi o da entrada de Shahd Wadi em cena após o flash da câmara fotográfica de Elmano Sancho. Um pequeno momento da peça que ganha destaque pela sua eficácia – é de destacar o papel Pedro Nabais na sua elaboração.
Uma vez mais, textos concebidos na Grécia Antiga ganham empatia e leitura no contexto social e político atual. Temas intemporais que reforçam a ideia de “círculo vicioso” das problemáticas da nossa Sociedade.
A estrutura artística Cassandra, sob coordenação de Sara Barros Leitão, aproxima a realidade das mulheres da obra de Ésquilo, que fugiram à procura de asilo, do Egito para a Grécia, com a dos atuais imigrantes que atravessam o Mar Mediterrâneo à procura de condições melhores nos países europeus. Viagens repletas de intempéries que, à sua chegada, enfrentam o choque direto com as barreiras ideológicas e culturais, estipulando assim uma comunicação dependente de tradução. Segundo a própria estrutura, o espetáculo procura e passo a citar: “uma reflexão sobre o próprio projeto Europeu, sobre fronteiras, sobre pactos de hospitalidade, acolhimento e integração.”.
Com referido anteriormente, Sara Barros Leitão é a responsável pela dramaturgia e encenação, com assistência de encenação de Inês Sincero e coordenação de pesquisa de Elizabeth Challinor.
Desde já, quero destacar a imponente cenografia, de autoria de F. Ribeiro. Elementos aos quais fiz as seguintes leituras: a rutura das nações com o mastro em caimento (curiosamente, para a direita) e a bandeira em completa inércia, a rede de pesca como barreira/muro que o mar instala entre os povos e a mesa de escritório com um certo ângulo que, dependo da posição que se observe, pode demonstrar a tendência de ascensão ou declínio – provavelmente de uma ideologia política.
Confesso que saí do espetáculo inquieto. Uma peça de teatro político – diria mais, “teatro reivindicativo” – que, pessoalmente, não é o meu formato predileto, todavia admito a sua relevância no contexto atual em que vivemos.
Senti uma certa desconexão com o monólogo do entregador. Creio que a sua extensão e o tom monocórdico proporcionaram esse estado. Um outro momento, foi no excerto da obra de Ésquilo. A meu ver, tal se deu por existir um distanciamento com a linguagem da obra original.
Em contrapartida, os diálogos, dinâmicos e vivos, sustentaram a atenção do público.
Nesta produção, o “miolo” da afamada história “A Bela e o Monstro”, é reinterpretada e contextualizada num cenário contemporâneo – numa biblioteca escolar – onde os livros e as estantes são testemunhas das relações humanas e de todas as suas oscilações.
A inserção de um elemento diferente num meio já existente gera reações e sensações diversas. Um “Mostro” a quem lhe basta uma “Bela”, ou mais que uma, que lhe faça despertar o seu real potencial e a sua verdadeira "beleza".
Ricardo Brito, foi o responsável pela dramaturgia e encenação deste projeto.
Para quem está habituado à linha de peças infantis que a ATEF – Companhia de Teatro nos tem presenteado ao longo dos anos, esta, foge da norma. Com menos momentos musicados e dançados, enfatiza o trabalho da mensagem e da relação entre personagens – o que NADA INFERIORIZA a produções passadas. Apenas reparo que com a diminuição desses momentos, o público infantil mais rapidamente perde o foco do espetáculo.
Uma criação textual bastante interessante, sendo divertida e com pulsação. Ao mesmo tempo, apresenta um jogo interpretativo igualmente satisfatório. Destaco o trabalho cenográfico de Ruben Freitas, com a construção de uma biblioteca “pomposa” que ilumina o imaginário do espetador.
No seu geral, parabenizo a toda a equipa pelo trabalho realizado.
Uma obra intemporal do escritor britânico, Lewis Carroll, onde a imaginação e a distopia materializam-se, desafiando Alice, uma jovem rapariga, a procurar respostas para as dúvidas que a perturbam. Uma luta partilhada com o leitor/espetador, em que os conceitos da consciência do TEMPO, a noção do REAL e do FICCIONADO e a ideia do CERTO e ERRADO, são colocados à prova.
Este espetáculo teve como responsáveis Maria João da Rocha Afonso pela tradução e adaptação do texto original de Lewis Carroll, encenação de Marco Medeiros, com assistência de Rebeca Duarte e direção musical e composição de Artur Guimarães, com assistência de Carlos Meireles.
O SONHO materializou-se em frente dos nossos olhos! Todas as áreas do espetáculo uniram-se e trabalharam com a precisão de um relógio suíço, entregando algo fantástico aos espetadores.
O trabalho de cenografia, de Ângela Rocha, com a idealização dos diferentes momentos e espaços – um mais surreal que o outro –, acompanhados com os igualmente surpreendentes figurinos, de Rafaela Mapril, o desenho de luz, de Marco Medeiros, e o desenho de som, de Sérgio Milhano. Em suma, quatro elementos que trabalharam em perfeita harmonia.
Já em relação à componente interpretativa, igualmente sem palavras, tanto pelo jogo entre intérpretes, como a vertente musical. Uma simbiose magistral que culminou numa ondulação de sensações – componente adjacente e premente à obra.
Para terminar o meu comentário, parabenizo TODOS os elementos que participaram direta ou indiretamente ao espetáculo. Certamente, um contributo fundamental para ter a qualidade que tem.
Uma história de enganos em que os cônjuges dos candidatos à presidência de freguesia, acabam por assumir a vanguarda eleitoral após o fatídico destino que assombrou a ambos os candidatos originais – curioso, não? Já o dono da agência funerária “Boa Morte” não poderia estar mais feliz com a oportunidade que lhe havia calhado, a não ser… com o atraso na entrega da mercadoria e o novo estagiário que lhe deixa os cabelos em pé – nem tudo é prefeito nesta vida, não é verdade?
Esta obra apresenta-nos uma constatação filosófica: “a nossa existência baseia-se em urnas, tanto eleitorais, como mortuárias”.
O espetáculo foi apresentado em contexto do ‘Festival Avesso 2025’, sob coordenação da Associação Avesso.
A sua concessão contou com a dramaturgia de Jean-Pierre Martinez, tradução de Maurícia Gabriel e adaptação e encenação de João Paulo Gouveia e João Pedro Ramos.
Uma peça cómica, crítica e envolvente. Elementos fundamentos para o sucesso da produção. Apetrechada de vídeos complementares e elementos de cenário que encheram os olhos do público. No seu geral, uma criação interessante com explorações interpretativas a destacar, como o candidato a presidente e o dono da agência funerária.
Por outro lado, creio que o espetáculo pecou em parte com a preocupação na “procura da piada”. Momentos em que se notava a introdução das “buchas cómicas” que, a meu ver, desnecessárias tendo em conta à construção dramatúrgica já bastante rica. Tal opção levava a um enfadamento com a ação.
Imaginem a seguinte situação: um jantar de confraternização, em que a personificação de três pontos do espectro político (centro moderado, esquerda progressista e direita conservadora) são os convidados de honra. Se as redes televisivas estivessem presentes, certamente teriam espectadores suficientes para superar qual experiência de reality show já existente.
Disputas ideológicas, coligações, disputa de eleitorado, debates intensos…, enfim, a representação da complexidade democrática, num espaço onde, tradicionalmente, se oculta tais assuntos: “não se discute política à mesa”.
A peça foi apresentada no contexto do ‘Festival de Teatro de Machico 2025’, sob coordenação do Grupo de Teatro de Machico.
Um projeto em que Ricardo Brito é o responsável pela concessão do texto e da encenação.
Estimei o espetáculo no seu geral. A aplicação de uma linguagem cómica e bastante física para a comunicação de um tema complexo. Comparações entre a “selvajaria humana” existente dentro e fora do parlamento. Quem é que se salva? Nem o público neste caso, que é confrontado com críticas sobre as suas ações.
Em relação à construção do espetáculo, um texto cativante, uma encenação agregadora e dinâmica, como destaque para as cenas da casa de banho, da luta de almofadas e da pizza.
Não obstante, realço o cuidado para com a excitação em cena, mais precisamente com o momento da interrupção maior. A informação é captada através dos jogos de ironia e de manipulação. Já quando o volume vocal excede, automaticamente, é criada uma barreira que impede essa mesma captação pelo espetador.
A convite da Erregueté - Revista Galega de Teatro, tive a oportunidade de escrever um artigo de crítica relativo ao espetáculo de teatro "«O Grande Incêndio» de Roland Schimmelpfennig", por A Escola da Noite e Sarabela Teatro, para a 109º edição da revista.
Um agradecimento à equipa da Erregueté, em especial ao Afonso Becerra Arrojo, pela oportunidade e confiança.
Um espetáculo em que o erro é tratado por “tu”. A tão tenebrosa “falha”, que arrepia todos os integrantes de uma criação artística quando imaginam essa possibilidade, é assumida e transformada em algo manifestante.
Resultante de uma residência artística, denominada de “FALHA”, com a premissa de explorar a analogia entre a fissura geológica que provocou o surgimento desta massa vulcânica a que chamamos de “Ilha da Madeira”, com o impacto da “fissura” do ATEF, em relação ao contexto artístico e social de cinquenta anos de existência na Região. Um aglomerado de falhas que resultaram no que é hoje, com as consequentes repercussões.
Nuno Pinheiro foi o responsável pela encenação e Lígia Soares a encarregada pela dramaturgia do espetáculo.
Gostei do modo como deram uma nova “roupagem” às falhas consequentes de um projeto artístico. Assumir o “erro”, não como um problema, mas sim como uma “visão prismática” de algo.
Destaco o trabalho plástico do Haikus Studio - Alberto Lage e Beatriz Vieira, com elementos visualmente impactantes e com funcionalidades cénicas igualmente interessantes.
Um resultado cativante, dinâmico e que merece o meus parabéns a toda a equipa.
A companhia angolana Teatro Pitabel, apresenta-nos um monólogo em que as temáticas do abuso infantil e a opressão perante a mulher são exibidas a cru. Um relato a partir de factos verídicos que pretende “chocar” o espetador e alertar para estas problemáticas que ainda são, infelizmente, vigentes na sociedade em que vivemos.
Esta peça foi apresentada em contexto da programação do ‘Festival Avesso 2025’, com produção da Associação Avesso.
A criação desta obra contou com o texto de Victor Bango Lino Suama, encenação de Carla Esmeralda, iluminação e assistência de Adérito Rodrigues e interpretação de Débora Makiese.
O objetivo dos artistas com esta proposta era de “chocar” o público pela intensidade e profundidade da mensagem, contudo, acredito que a parte do “chocar”, funcionou, mas o restante, ficou aquém do expectado. Falhas estruturais que passo a enumerar e a justificar perante a minha opinião.
O espetáculo inicia de uma forma cativante. Um jogo de máscara inusitado e apelativo pela criação de contraste, no entanto, perde-se o efeito pelo longo período de utilização, acoplado à invariável proposta de jogo.
Numa fase posterior, as propostas gráficas daquilo que seria a representação da violação e do abuso para com o corpo alheio, perderam a força e intenção, pela forma da execução. Por vezes, a opção da exemplificação do assunto que estamos a retratar, leva a uma descontextualização e perda de credibilidade do tema a ser abordado. Neste caso, o extremo foi ultrapassado de tal forma, que se transformou algo, de certo modo, “cómico”.
Propostas de transição entre cenas lentas e de pouco gabarito e as escolhas musicais não foram as mais adequadas.
Em suma, foi um espetáculo que me inquietou, mas não pelos melhores motivos.
A obra “Hamlet”, de William Shakespeare, é um dos textos mais conhecidos e mais acarinhados da dramaturgia. Uma obra-prima que continua a ser contemporânea, apesar de ter sido escrita há mais de 400 anos.
Uma tragédia em que vingança, os jogos de poder, o sofrimento e a manipulação fixam-se como raízes e criam estabilidade a uma sociedade aparentemente plena, mas que está intrinsecamente podre.
Neste espetáculo, a grande adaptação da obra “Hamlet”, a maior que a cidade já viu, ou alguma vez verá, foi cancelada. Ninguém sabe porquê. Problemas com apoios e patrocinadores, atritos entre a produção e elenco, dificuldade no cumprimento das datas estipuladas, enfim… as opções são variadas. Inconformado com tal desfecho, Vinicius, decide construir a sua própria adaptação, a partir da adaptação que seria apresentada. Utiliza excertos do texto original, apresenta propostas de ação, de idealização, de luz, de cenário, de figurinos, etc.. A tentativa de não deixar morrer o trabalho que tanto custou a ser concebido.
A peça esteve inserida na programação do ‘Festival Avesso 2025’, promovido pela Associação Avesso.
Este texto teve como responsáveis Flávio Tonnetti e Vinícius Piedade e a encenação ficou a cabo de Vinícius Piedade, com assistência de encenação de Fábio Vidal.
Este é o quinto monólogo de Vinícius Piedade. Uma procura, e passo a citar, pela: “discussão conceptual sobre o sujeito contemporâneo e a sua relação com a sociedade moderna.”.
Uma proposta textual interessante na forma como desconstruiu o texto de Shakespeare e incorporou e adaptou vários tópicos e problemáticas da atualidade, tanto na sociedade em geral, como no contexto teatral. Tive um gosto especial pelo jogo cénico que tomou com as frutas.
Por outro lado, creio que a repetição de gagues e as mudanças abruptas e consecutivas de pensamento e de história, levavam a certa altura, a um cansaço e desconexão do público para com a ação. Manter um único ator a captar a atenção de uma plateia, por 1h30, apesar do dinamismo e de representar vários personagens, é um objetivo bastante audacioso. É possível, mas não é nada fácil.