Com a premissa de revisitar a viagem que seu pai havia feito nos anos 70, quando emigrou para França, Elmano Sancho, autor e intérprete da obra, procurou descobrir peças perdidas nesse processo de deslocação da terra em que se nasce, para uma outra onde se almeja a prosperidade. O arrancar das raízes na esperança de as replantar em solos mais férteis, num processo de adaptação complexo.
Elmano passou de uma concretização individual do projeto, a partilhá-lo com Shahd Wadi, depois de a escutar, por acaso, numa entrevista em que comentava o seu sonho de regressar à Palestina, sua terra de origem. Dois pontos de partida distintos, que se cruzam com a vontade de “se encontrarem”.
Como já referido, Elmano Sancho foi o responsável pela dramaturgia e encenação da peça, ao mesmo tempo que partilha a interpretação com Shahd Wadi. A assistência de encenação ficou a cargo de Paulo Lage.
Admito que a temática abordada é interessante e as duas perspetivas, apesar de distintas, seguem em harmonia. No entanto, confesso que fiquei entediado com as opções cénicas. Longos discursos monocórdicos, pouca movimentação, um ambiente escurecido e uma certa dificuldade em compreender os áudios da projeção, foram alguns dos tópicos que me levaram a desconectar com a obra.
Quero destacar um efeito de transição que funcionou muito bem, que foi o da entrada de Shahd Wadi em cena após o flash da câmara fotográfica de Elmano Sancho. Um pequeno momento da peça que ganha destaque pela sua eficácia – é de destacar o papel Pedro Nabais na sua elaboração.
Aqui encontramos uma obra diferente daquilo a que o grupo 4 Litro habitualmente nos habituou. A sua origem está nas crenças populares madeirenses, das quais muitos já devem ter ouvido falar: a "Feiticeira". O argumento foi escrito pelo próprio grupo, enquanto a realização foi tanto dos 4 Litro como de Roberto Assis.
Algo que é importante realçar e que fizeram questão de mencionar na divulgação do filme é o facto de se tratar de uma obra genuinamente madeirense. Ao contrário do que acontece noutros países, Portugal não tem uma indústria cinematográfica propriamente dita e são poucos os projetos que chegam a ver a luz do dia. Esta situação é ainda mais grave nas ilhas, tanto na Madeira como nos Açores. Acho importante a realização de trabalhos autónomos por parte dos próprios artistas que nasceram e vivem lá. Independentemente da opinião individual de cada espectador ao assistir ao filme, é necessário louvar o mérito e o trabalho de todos aqueles que transformaram Crendices de uma ideia escrita num papel num filme.
Ao meu ver, a escolha do tema foi bastante interessante por vários motivos, nomeadamente o tema em si, que é muito característico do povo madeirense, conhecido pelas suas tradições supersticiosas. O tema abre caminho e asas à imaginação e ao humor absurdo dos 4 Litro. Esse humor continua presente em "Crendices", mas é importante salientar que neste filme o tom é bastante mais sóbrio. Não se trata apenas de humor, mas sim de uma mistura de terror, drama e comédia. Os atores do grupo continuam presentes, mas ocupam agora o lugar de personagens secundárias. Claro que o grande atrativo deste filme continua a ser o humor dos personagens dos "4 Litros". Ao estar sentado no meio da plateia, sentia-se a sala a rir sempre que os seus personagens estavam em cena; as suas vozes engraçadas e as circunstâncias absurdas em que se envolviam eram os pontos altos. Confesso que fiquei curioso para saber qual seria a reação do público noutras salas. Como reagiria o público em Lisboa? Seriam capazes de entender as piadas? Achariam piada? Será esta obra tão enraizada nas suas próprias raízes que quem é de fora não compreende o seu apelo?
A narrativa do filme gira em torno de um drama familiar, que constitui o seu ponto fulcral. Claro que as superstições madeirenses estão presentes, mas apenas complementam o drama existente. Temas como um pai abusivo, uma mãe submissa e a estranha sensação de nunca ter pertencido àquela família.
Porém, estes temas acabam por ser rasos: nunca se chega a conhecer realmente aquela família, a não ser numa perspetiva externa. Além disso, ao longo da narrativa, há algumas pontas soltas: mortes que acontecem fora de cena e personagens que não têm muito tempo de tela. Acontece muita coisa ao longo do filme, mas há pouco tempo para a sentir de facto. Algumas personagens não passam de caricaturas, devido ao pouco tempo de desenvolvimento. Na minha opinião, não há nada de errado com esta história ou com as escolhas nela feitas, mas sinto apenas uma falta de ligação emocional com o filme. Sinto que ganharia algo se houvesse mais tempo para estar naquele universo e conhecer aqueles personagens a fundo.
Outros aspetos técnicos, como a iluminação e o som, complementam lindamente o filme. Desde o início até ao fim, existe uma camada sonora muito presente que nunca permite ao espectador descansar verdadeiramente. O som da trovoada, a chuva, os efeitos sonoros e a música contribuem para criar uma atmosfera tenebrosa. A iluminação enfrenta o desafio de iluminar várias cenas noturnas, o que não é fácil, sobretudo quando os personagens se encontram no meio da rua. Em alguns planos, é possível ver o reflexo da iluminação das luzes nos óculos e nos telemóveis. Gostaria de ver uma iluminação com mais sombras duras e contrastes nos personagens. Algo que é feito no filme Godfather (1972), de Francis Ford Coppola, onde se utilizam sombras nos olhos dos personagens para lhes conferir uma natureza obscura.
Ao ver o filme, sinto que houve, acima de tudo, um enorme carinho por toda a cultura madeirense. Isso permite ao público atual conhecer e revisitar um pouco das suas origens. Um passado que pode estar um pouco esquecido, mas com uma grande riqueza cultural. Acho que este desafio foi muito interessante e que seria uma boa aventura para o grupo 4 Litro contar as suas histórias no grande ecrã.
Esta produção cinematográfica tem como tema central uma vivência que se designa pelo adjetivo "insular". A sua origem remonta ao latim "insularis", que se refere a quem vive numa ilha ou a quem lhe pertence.
Como o próprio título sugere, esta produção é um "Omnibus Film", ou seja, uma longa-metragem composta por três curtas-metragens individuais. Cada uma tem a sua própria narrativa, mas todas têm um tema em comum. O que significa o adjetivo "insular" para quem realmente o viveu?
A proposta partiu da APCA (Agência de Promoção da Cultura Atlântica), que desafiou estes jovens realizadores a escreverem sobre este tema, que, quer se apercebam, quer não, falam de si próprios, voluntária ou involuntariamente. A equipa é constituída pelas produtoras Inês Tecedeiro e Mariça da Silva.
(Acho importante frisar que a visualização deste filme e a eventual escrita deste comentário ocorreram após assistir a uma sessão antes do corte final do filme.)
A primeira curta-metragem, que abriu a sessão, foi da autoria de André Moniz. Para minha surpresa e alegria, fez-me recuar no tempo, tratando-se de uma curta-metragem de época! Um elemento importante para a narrativa, muito bem utilizado pela equipa a seu favor. Geralmente, realizar uma narrativa de época levanta grandes questões problemáticas para a produção de uma obra audiovisual.
No entanto, a narrativa baseia-se apenas num pequeno ilhéu na ponta de São Lourenço, com dois personagens isolados do resto da ilha. O único contacto externo que têm com o resto da ilha é através do rádio, o que dá origem a uma história que explora a sensação de isolamento. Esse isolamento é sentido fisicamente, por exemplo, quando os personagens realizam tarefas mundanas e olham para o mar, avistando ao longe as restantes freguesias da ilha. O isolamento físico parece não afetar muito o personagem principal, mas o que realmente o afeta são os problemas do passado. Trata-se de um personagem que tenta constantemente fugir de si próprio e do que lhe aconteceu, procurando um refúgio longe de tudo. O que exatamente aconteceu nunca é mostrado, ficando ao critério do público imaginar o que poderá ter acontecido.
Ao assistir a esta obra, é difícil não estabelecer comparações com outro filme intitulado The Lighthouse (2019), de Robert Eggers, tanto pela semelhança do local de gravação como pelo tema e até pelo número reduzido de personagens. Vejo essas inspirações de forma positiva, pois ajudaram bastante a curta-metragem, mas não nego que sinto falta de um design de som mais presente. Talvez seja devido à sala em si (por não ter sido concebida para projeções cinematográficas) ou por ainda não estar finalizada. Há som diegético e uma banda sonora que acompanha a curta-metragem. Ainda assim, sinto que o som poderia desempenhar um papel importante ao colocar o espectador na cabeça perturbada do personagem.
Por fim, penso que nesta curta-metragem o tema insular é invertido em relação às outras obras. O tom da narrativa é bastante mais pesado do que o das restantes curtas. Aqui, os personagens vivem numa ilha conhecida pela sua calma, mas que, por vezes, mais parece uma prisão.
A segunda obra é da autoria de Carolina Caldeira e, ao contrário do que tinha sido apresentado até agora, esta curta-metragem não segue uma narrativa linear. Trata-se de uma obra experimental, com mais cortes, experimentação com cores e planos subaquáticos. Na minha opinião, aqui encontramos um universo bastante introspetivo da personagem, como se fosse possível estar dentro de um sonho. Compreendo que algumas pessoas se sintam um pouco desconectadas da obra, mas não acho que a culpa seja da obra em si. Trata-se de algo introspetivo, com planos muito bonitos, por sinal, de uma personagem que tem uma ligação forte com o mar. Os planos precisam de tempo para serem assimilados pelo público; o diálogo é pausado, por isso, depende muito do espectador e da sua abertura à experiência.
A magia da obra reside na beleza das coisas simples e nas sensações que transmite ao espectador. Tanto nos planos da personagem a mergulhar no oceano, do barco parado no meio da água, sem qualquer rumo, como no movimento das ondas contra as rochas à beira-mar. Estes elementos casam muito bem com o discurso pausado das falas. Por isso, acho difícil explicar: esta curta-metragem é uma autêntica viagem entre a imagem e o som. Algo que não se explica com palavras, mas que se sente.
A terceira curta-metragem, na minha opinião, mantém os elementos experimentais da segunda obra, mas acrescenta uma verdadeira viagem no tempo ao passado desta ilha. Nela, o presente e o passado misturam-se numa autêntica viagem no tempo, em que a narrativa assume um papel secundário.
Durante as entrevistas, os realizadores falam de uma obra em particular: "As Ilhas Desconhecidas: Notas e Paisagens", de Raul Brandão. A sinopse é a seguinte:
“Em 1924, Raul Brandão fez uma viagem aos arquipélagos dos Açores e da Madeira… Dessa visita, das suas impressões e anotações, surgiu o livro As Ilhas Desconhecidas - Notas e paisagens, em que ele não só descreve com particular fulgor a beleza natural das ilhas como observa a condição do seu habitante...”
(Transcrição da sinopse publicada no site Wook.)
A viagem que Óscar Silva leva o espectador a fazer é pela perspetiva de uma personagem que, através de uma câmara, o transporta por diferentes paisagens e momentos. Desde caminhadas com turistas até personagens com vestimentas tradicionais madeirenses. Ao longo destes momentos, somos acompanhados por um diálogo da personagem principal, com o mesmo registo pausado e introspetivo.
Tanto na obra de Raul Brandão como na de Óscar Silva, é difícil não querer conhecer um pouco mais sobre aquele mundo, aqueles personagens, as suas vidas e angústias. O livro “As Ilhas Desconhecidas: Notas e Paisagens” não foge à regra ao denunciar as crueldades daquela época, mas o intuito aqui era outro. A viagem oferecida transcende a homenagem ao que nunca teremos a oportunidade de presenciar; ficam as histórias e as fotografias em película. É uma viagem ao nosso próprio passado, em que deambulamos pela mesma câmara antiga a capturar momentos.
"Insulanas" oferece três perspetivas muito singulares, que só seriam possíveis através de diferentes mentes criativas. Cada uma oferece uma perspetiva única, tanto pelo género da curta-metragem como pela resposta a esta questão: "O que é ser insular?"
Uma vez mais, textos concebidos na Grécia Antiga ganham empatia e leitura no contexto social e político atual. Temas intemporais que reforçam a ideia de “círculo vicioso” das problemáticas da nossa Sociedade.
A estrutura artística Cassandra, sob coordenação de Sara Barros Leitão, aproxima a realidade das mulheres da obra de Ésquilo, que fugiram à procura de asilo, do Egito para a Grécia, com a dos atuais imigrantes que atravessam o Mar Mediterrâneo à procura de condições melhores nos países europeus. Viagens repletas de intempéries que, à sua chegada, enfrentam o choque direto com as barreiras ideológicas e culturais, estipulando assim uma comunicação dependente de tradução. Segundo a própria estrutura, o espetáculo procura e passo a citar: “uma reflexão sobre o próprio projeto Europeu, sobre fronteiras, sobre pactos de hospitalidade, acolhimento e integração.”.
Com referido anteriormente, Sara Barros Leitão é a responsável pela dramaturgia e encenação, com assistência de encenação de Inês Sincero e coordenação de pesquisa de Elizabeth Challinor.
Desde já, quero destacar a imponente cenografia, de autoria de F. Ribeiro. Elementos aos quais fiz as seguintes leituras: a rutura das nações com o mastro em caimento (curiosamente, para a direita) e a bandeira em completa inércia, a rede de pesca como barreira/muro que o mar instala entre os povos e a mesa de escritório com um certo ângulo que, dependo da posição que se observe, pode demonstrar a tendência de ascensão ou declínio – provavelmente de uma ideologia política.
Confesso que saí do espetáculo inquieto. Uma peça de teatro político – diria mais, “teatro reivindicativo” – que, pessoalmente, não é o meu formato predileto, todavia admito a sua relevância no contexto atual em que vivemos.
Senti uma certa desconexão com o monólogo do entregador. Creio que a sua extensão e o tom monocórdico proporcionaram esse estado. Um outro momento, foi no excerto da obra de Ésquilo. A meu ver, tal se deu por existir um distanciamento com a linguagem da obra original.
Em contrapartida, os diálogos, dinâmicos e vivos, sustentaram a atenção do público.
Nesta produção, o “miolo” da afamada história “A Bela e o Monstro”, é reinterpretada e contextualizada num cenário contemporâneo – numa biblioteca escolar – onde os livros e as estantes são testemunhas das relações humanas e de todas as suas oscilações.
A inserção de um elemento diferente num meio já existente gera reações e sensações diversas. Um “Mostro” a quem lhe basta uma “Bela”, ou mais que uma, que lhe faça despertar o seu real potencial e a sua verdadeira "beleza".
Ricardo Brito, foi o responsável pela dramaturgia e encenação deste projeto.
Para quem está habituado à linha de peças infantis que a ATEF – Companhia de Teatro nos tem presenteado ao longo dos anos, esta, foge da norma. Com menos momentos musicados e dançados, enfatiza o trabalho da mensagem e da relação entre personagens – o que NADA INFERIORIZA a produções passadas. Apenas reparo que com a diminuição desses momentos, o público infantil mais rapidamente perde o foco do espetáculo.
Uma criação textual bastante interessante, sendo divertida e com pulsação. Ao mesmo tempo, apresenta um jogo interpretativo igualmente satisfatório. Destaco o trabalho cenográfico de Ruben Freitas, com a construção de uma biblioteca “pomposa” que ilumina o imaginário do espetador.
No seu geral, parabenizo a toda a equipa pelo trabalho realizado.
Na mesma semana em que se celebra o Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres (25 de novembro), a Associação ONE retorna a palco com um espetáculo de dança contemporânea que retrata a evolução de uma relação amorosa potenciada pelo ódio e violência. O espetáculo serve como alerta para tal problemática cada vez mais crescente na nossa sociedade. Um trabalho de exposição que pretende com que o público seja impactado com sensações intensas e sensíveis, ao mesmo tempo que o convida a refletir sobre aquilo que testemunha.
É de destacar que para assinalar o seu compromisso para com a causa, 50% da bilheteira reverteu para o Fundo de Provimento de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica.
Como responsáveis pela conceção do espetáculo estiveram Joana Moreira (coreógrafa e intérprete) e Clara Gouveia (responsável da Associação ONE).
Um espetáculo intenso, impactante e esteticamente belo. Trabalho coreográfico que mescla a dança contemporânea e a ginástica acrobática – pormenor que, a meu entender, potencializou imensamente a obra.
Para concluir, parabenizo toda a equipa pelo trabalho desenvolvido. Apesar dos imprevistos a meio espetáculo (acidente com o linóleo e falhas de posição nos focos de luz), conseguiram igualmente impactar o público – quem esteve presente, sentiu a intensidade com que os espetadores responderam ao espetáculo.
Uma obra intemporal do escritor britânico, Lewis Carroll, onde a imaginação e a distopia materializam-se, desafiando Alice, uma jovem rapariga, a procurar respostas para as dúvidas que a perturbam. Uma luta partilhada com o leitor/espetador, em que os conceitos da consciência do TEMPO, a noção do REAL e do FICCIONADO e a ideia do CERTO e ERRADO, são colocados à prova.
Este espetáculo teve como responsáveis Maria João da Rocha Afonso pela tradução e adaptação do texto original de Lewis Carroll, encenação de Marco Medeiros, com assistência de Rebeca Duarte e direção musical e composição de Artur Guimarães, com assistência de Carlos Meireles.
O SONHO materializou-se em frente dos nossos olhos! Todas as áreas do espetáculo uniram-se e trabalharam com a precisão de um relógio suíço, entregando algo fantástico aos espetadores.
O trabalho de cenografia, de Ângela Rocha, com a idealização dos diferentes momentos e espaços – um mais surreal que o outro –, acompanhados com os igualmente surpreendentes figurinos, de Rafaela Mapril, o desenho de luz, de Marco Medeiros, e o desenho de som, de Sérgio Milhano. Em suma, quatro elementos que trabalharam em perfeita harmonia.
Já em relação à componente interpretativa, igualmente sem palavras, tanto pelo jogo entre intérpretes, como a vertente musical. Uma simbiose magistral que culminou numa ondulação de sensações – componente adjacente e premente à obra.
Para terminar o meu comentário, parabenizo TODOS os elementos que participaram direta ou indiretamente ao espetáculo. Certamente, um contributo fundamental para ter a qualidade que tem.
Um dos maiores nomes da música popular brasileira, com uma carreia de décadas, continua a emanar samba e boa disposição por todos os poros do seu corpo. Autor dos sucessos, “Canta Canta, Minha Gente”, “Devagar, Devagarinho”, “Mulheres”, entre muitas outros, colocou os espetadores do Coliseu dos Recreios numa só pulsação, enfeitiçados pela magia do samba.
Destaco o momento em que a sonoridade da sanfona brasileira tornou-se prioridade e o domínio e força do mestre Martinho para com o público, apesar de já carregar às costas 87 primaveras. Como diz o povo e com razão: “A idade é só um número”.
De agora em diante, posso ter o orgulho de dizer que já assisti o mestre Martinho da Vila ao vivo! Um momento memorável!
Duas caras conhecidas da internet, pelo seu bom humor e animação sempre acompanhada de uma melodia. Esta dupla sai da digital, para o real, num espetáculo em que contam o percurso que fizeram até chegar ao palco em que estão. Passam pela infância, as loucuras da juventude, a criação do podcast “Canta-me uma história” e terminam com um ponto geral sobre a atualidade.
Confesso que apenas conhecia os artistas de uma, ou duas músicas que me apareceram nas redes sociais. Com toda a certeza, após o espetáculo, passei a conhecê-los melhor. Certamente, foi um momento de reunião e tertúlia – só faltou a mesa comprida, as bebidas e os aperitivos. Animação não faltou. Num formato de improvisação, puseram a plateia a rir, a delirar, a sentir, a escutar… enfim, uma panóplia de sensações. Ao princípio estranhei as constantes nuances, depois “entranhei”.
As principais memórias que me ficam são o momento insólito em que a filha do David Antunes lhe liga a pedir “10 paus” em pleno espetáculo, a imagem do Emanuel Moura a “tentar levantar voo” nas rampas do Centro de Congressos da Madeira, a vivacidade e a energia com que o David Antunes tocava no piano – certamente deve comprar pedais de duas em duas semanas… enfim, se continuar a descrever, conto o espetáculo por completo. Algo “caótico”, que no fim, resultou numa experiência quase indescritível.
Deixo só o alerta para um maior cuidado com os volumes. A certa altura, senti os meus tímpanos a pedir ajuda pela música bastante alta.
Uma história de enganos em que os cônjuges dos candidatos à presidência de freguesia, acabam por assumir a vanguarda eleitoral após o fatídico destino que assombrou a ambos os candidatos originais – curioso, não? Já o dono da agência funerária “Boa Morte” não poderia estar mais feliz com a oportunidade que lhe havia calhado, a não ser… com o atraso na entrega da mercadoria e o novo estagiário que lhe deixa os cabelos em pé – nem tudo é prefeito nesta vida, não é verdade?
Esta obra apresenta-nos uma constatação filosófica: “a nossa existência baseia-se em urnas, tanto eleitorais, como mortuárias”.
O espetáculo foi apresentado em contexto do ‘Festival Avesso 2025’, sob coordenação da Associação Avesso.
A sua concessão contou com a dramaturgia de Jean-Pierre Martinez, tradução de Maurícia Gabriel e adaptação e encenação de João Paulo Gouveia e João Pedro Ramos.
Uma peça cómica, crítica e envolvente. Elementos fundamentos para o sucesso da produção. Apetrechada de vídeos complementares e elementos de cenário que encheram os olhos do público. No seu geral, uma criação interessante com explorações interpretativas a destacar, como o candidato a presidente e o dono da agência funerária.
Por outro lado, creio que o espetáculo pecou em parte com a preocupação na “procura da piada”. Momentos em que se notava a introdução das “buchas cómicas” que, a meu ver, desnecessárias tendo em conta à construção dramatúrgica já bastante rica. Tal opção levava a um enfadamento com a ação.