“INSULANAS” UM FILME TRI-PARTIDO, por André Moniz, Carolina Caldeira e Óscar Silva. | COMENTÁRIO: Luís Rodrigo
Esta produção cinematográfica tem como tema central uma vivência que se designa pelo adjetivo "insular". A sua origem remonta ao latim "insularis", que se refere a quem vive numa ilha ou a quem lhe pertence.
Como o próprio título sugere, esta produção é um "Omnibus Film", ou seja, uma longa-metragem composta por três curtas-metragens individuais. Cada uma tem a sua própria narrativa, mas todas têm um tema em comum. O que significa o adjetivo "insular" para quem realmente o viveu?
A proposta partiu da APCA (Agência de Promoção da Cultura Atlântica), que desafiou estes jovens realizadores a escreverem sobre este tema, que, quer se apercebam, quer não, falam de si próprios, voluntária ou involuntariamente. A equipa é constituída pela produtora Inês Tecedeiro e pela realizadora Mariça da Silva.
(Acho importante frisar que a visualização deste filme e a eventual escrita deste comentário ocorreram após assistir a uma sessão antes do corte final do filme.)
A primeira curta-metragem, que abriu a sessão, foi da autoria de André Moniz. Para minha surpresa e alegria, fez-me recuar no tempo, tratando-se de uma curta-metragem de época! Um elemento importante para a narrativa, muito bem utilizado pela equipa a seu favor. Geralmente, realizar uma narrativa de época levanta grandes questões problemáticas para a produção de uma obra audiovisual.
No entanto, a narrativa baseia-se apenas num pequeno ilhéu na ponta de São Lourenço, com dois personagens isolados do resto da ilha. O único contacto externo que têm com o resto da ilha é através do rádio, o que dá origem a uma história que explora a sensação de isolamento. Esse isolamento é sentido fisicamente, por exemplo, quando os personagens realizam tarefas mundanas e olham para o mar, avistando ao longe as restantes freguesias da ilha. O isolamento físico parece não afetar muito o personagem principal, mas o que realmente o afeta são os problemas do passado. Trata-se de um personagem que tenta constantemente fugir de si próprio e do que lhe aconteceu, procurando um refúgio longe de tudo. O que exatamente aconteceu nunca é mostrado, ficando ao critério do público imaginar o que poderá ter acontecido.
Ao assistir a esta obra, é difícil não estabelecer comparações com outro filme intitulado The Lighthouse (2019), de Robert Eggers, tanto pela semelhança do local de gravação como pelo tema e até pelo número reduzido de personagens. Vejo essas inspirações de forma positiva, pois ajudaram bastante a curta-metragem, mas não nego que sinto falta de um design de som mais presente. Talvez seja devido à sala em si (por não ter sido concebida para projeções cinematográficas) ou por ainda não estar finalizada. Há som diegético e uma banda sonora que acompanha a curta-metragem. Ainda assim, sinto que o som poderia desempenhar um papel importante ao colocar o espectador na cabeça perturbada do personagem.
Por fim, penso que nesta curta-metragem o tema insular é invertido em relação às outras obras. O tom da narrativa é bastante mais pesado do que o das restantes curtas. Aqui, os personagens vivem numa ilha conhecida pela sua calma, mas que, por vezes, mais parece uma prisão.
A segunda obra é da autoria de Carolina Caldeira e, ao contrário do que tinha sido apresentado até agora, esta curta-metragem não segue uma narrativa linear. Trata-se de uma obra experimental, com mais cortes, experimentação com cores e planos subaquáticos. Na minha opinião, aqui encontramos um universo bastante introspetivo da personagem, como se fosse possível estar dentro de um sonho. Compreendo que algumas pessoas se sintam um pouco desconectadas da obra, mas não acho que a culpa seja da obra em si. Trata-se de algo introspetivo, com planos muito bonitos, por sinal, de uma personagem que tem uma ligação forte com o mar. Os planos precisam de tempo para serem assimilados pelo público; o diálogo é pausado, por isso, depende muito do espectador e da sua abertura à experiência.
A magia da obra reside na beleza das coisas simples e nas sensações que transmite ao espectador. Tanto nos planos da personagem a mergulhar no oceano, do barco parado no meio da água, sem qualquer rumo, como no movimento das ondas contra as rochas à beira-mar. Estes elementos casam muito bem com o discurso pausado das falas. Por isso, acho difícil explicar: esta curta-metragem é uma autêntica viagem entre a imagem e o som. Algo que não se explica com palavras, mas que se sente.
A terceira curta-metragem, na minha opinião, mantém os elementos experimentais da segunda obra, mas acrescenta uma verdadeira viagem no tempo ao passado desta ilha. Nela, o presente e o passado misturam-se numa autêntica viagem no tempo, em que a narrativa assume um papel secundário.
Durante as entrevistas, os realizadores falam de uma obra em particular: "As Ilhas Desconhecidas: Notas e Paisagens", de Raul Brandão. A sinopse é a seguinte:
“Em 1924, Raul Brandão fez uma viagem aos arquipélagos dos Açores e da Madeira… Dessa visita, das suas impressões e anotações, surgiu o livro As Ilhas Desconhecidas - Notas e paisagens, em que ele não só descreve com particular fulgor a beleza natural das ilhas como observa a condição do seu habitante...”
(Transcrição da sinopse publicada no site Wook.)
A viagem que Óscar Silva leva o espectador a fazer é pela perspetiva de uma personagem que, através de uma câmara, o transporta por diferentes paisagens e momentos. Desde caminhadas com turistas até personagens com vestimentas tradicionais madeirenses. Ao longo destes momentos, somos acompanhados por um diálogo da personagem principal, com o mesmo registo pausado e introspetivo.
Tanto na obra de Raul Brandão como na de Óscar Silva, é difícil não querer conhecer um pouco mais sobre aquele mundo, aqueles personagens, as suas vidas e angústias. O livro “As Ilhas Desconhecidas: Notas e Paisagens” não foge à regra ao denunciar as crueldades daquela época, mas o intuito aqui era outro. A viagem oferecida transcende a homenagem ao que nunca teremos a oportunidade de presenciar; ficam as histórias e as fotografias em película. É uma viagem ao nosso próprio passado, em que deambulamos pela mesma câmara antiga a capturar momentos.
"Insulanas" oferece três perspetivas muito singulares, que só seriam possíveis através de diferentes mentes criativas. Cada uma oferece uma perspetiva única, tanto pelo género da curta-metragem como pela resposta a esta questão: "O que é ser insular?"