Uma obra intemporal do escritor britânico, Lewis Carroll, onde a imaginação e a distopia materializam-se, desafiando Alice, uma jovem rapariga, a procurar respostas para as dúvidas que a perturbam. Uma luta partilhada com o leitor/espetador, em que os conceitos da consciência do TEMPO, a noção do REAL e do FICCIONADO e a ideia do CERTO e ERRADO, são colocados à prova.
Este espetáculo teve como responsáveis Maria João da Rocha Afonso pela tradução e adaptação do texto original de Lewis Carroll, encenação de Marco Medeiros, com assistência de Rebeca Duarte e direção musical e composição de Artur Guimarães, com assistência de Carlos Meireles.
O SONHO materializou-se em frente dos nossos olhos! Todas as áreas do espetáculo uniram-se e trabalharam com a precisão de um relógio suíço, entregando algo fantástico aos espetadores.
O trabalho de cenografia, de Ângela Rocha, com a idealização dos diferentes momentos e espaços – um mais surreal que o outro –, acompanhados com os igualmente surpreendentes figurinos, de Rafaela Mapril, o desenho de luz, de Marco Medeiros, e o desenho de som, de Sérgio Milhano. Em suma, quatro elementos que trabalharam em perfeita harmonia.
Já em relação à componente interpretativa, igualmente sem palavras, tanto pelo jogo entre intérpretes, como a vertente musical. Uma simbiose magistral que culminou numa ondulação de sensações – componente adjacente e premente à obra.
Para terminar o meu comentário, parabenizo TODOS os elementos que participaram direta ou indiretamente ao espetáculo. Certamente, um contributo fundamental para ter a qualidade que tem.
Um dos maiores nomes da música popular brasileira, com uma carreia de décadas, continua a emanar samba e boa disposição por todos os poros do seu corpo. Autor dos sucessos, “Canta Canta, Minha Gente”, “Devagar, Devagarinho”, “Mulheres”, entre muitas outros, colocou os espetadores do Coliseu dos Recreios numa só pulsação, enfeitiçados pela magia do samba.
Destaco o momento em que a sonoridade da sanfona brasileira tornou-se prioridade e o domínio e força do mestre Martinho para com o público, apesar de já carregar às costas 87 primaveras. Como diz o povo e com razão: “A idade é só um número”.
De agora em diante, posso ter o orgulho de dizer que já assisti o mestre Martinho da Vila ao vivo! Um momento memorável!
Duas caras conhecidas da internet, pelo seu bom humor e animação sempre acompanhada de uma melodia. Esta dupla sai da digital, para o real, num espetáculo em que contam o percurso que fizeram até chegar ao palco em que estão. Passam pela infância, as loucuras da juventude, a criação do podcast “Canta-me uma história” e terminam com um ponto geral sobre a atualidade.
Confesso que apenas conhecia os artistas de uma, ou duas músicas que me apareceram nas redes sociais. Com toda a certeza, após o espetáculo, passei a conhecê-los melhor. Certamente, foi um momento de reunião e tertúlia – só faltou a mesa comprida, as bebidas e os aperitivos. Animação não faltou. Num formato de improvisação, puseram a plateia a rir, a delirar, a sentir, a escutar… enfim, uma panóplia de sensações. Ao princípio estranhei as constantes nuances, depois “entranhei”.
As principais memórias que me ficam são o momento insólito em que a filha do David Antunes lhe liga a pedir “10 paus” em pleno espetáculo, a imagem do Emanuel Moura a “tentar levantar voo” nas rampas do Centro de Congressos da Madeira, a vivacidade e a energia com que o David Antunes tocava no piano – certamente deve comprar pedais de duas em duas semanas… enfim, se continuar a descrever, conto o espetáculo por completo. Algo “caótico”, que no fim, resultou numa experiência quase indescritível.
Deixo só o alerta para um maior cuidado com os volumes. A certa altura, senti os meus tímpanos a pedir ajuda pela música bastante alta.
Uma história de enganos em que os cônjuges dos candidatos à presidência de freguesia, acabam por assumir a vanguarda eleitoral após o fatídico destino que assombrou a ambos os candidatos originais – curioso, não? Já o dono da agência funerária “Boa Morte” não poderia estar mais feliz com a oportunidade que lhe havia calhado, a não ser… com o atraso na entrega da mercadoria e o novo estagiário que lhe deixa os cabelos em pé – nem tudo é prefeito nesta vida, não é verdade?
Esta obra apresenta-nos uma constatação filosófica: “a nossa existência baseia-se em urnas, tanto eleitorais, como mortuárias”.
O espetáculo foi apresentado em contexto do ‘Festival Avesso 2025’, sob coordenação da Associação Avesso.
A sua concessão contou com a dramaturgia de Jean-Pierre Martinez, tradução de Maurícia Gabriel e adaptação e encenação de João Paulo Gouveia e João Pedro Ramos.
Uma peça cómica, crítica e envolvente. Elementos fundamentos para o sucesso da produção. Apetrechada de vídeos complementares e elementos de cenário que encheram os olhos do público. No seu geral, uma criação interessante com explorações interpretativas a destacar, como o candidato a presidente e o dono da agência funerária.
Por outro lado, creio que o espetáculo pecou em parte com a preocupação na “procura da piada”. Momentos em que se notava a introdução das “buchas cómicas” que, a meu ver, desnecessárias tendo em conta à construção dramatúrgica já bastante rica. Tal opção levava a um enfadamento com a ação.
Imaginem a seguinte situação: um jantar de confraternização, em que a personificação de três pontos do espectro político (centro moderado, esquerda progressista e direita conservadora) são os convidados de honra. Se as redes televisivas estivessem presentes, certamente teriam espectadores suficientes para superar qual experiência de reality show já existente.
Disputas ideológicas, coligações, disputa de eleitorado, debates intensos…, enfim, a representação da complexidade democrática, num espaço onde, tradicionalmente, se oculta tais assuntos: “não se discute política à mesa”.
A peça foi apresentada no contexto do ‘Festival de Teatro de Machico 2025’, sob coordenação do Grupo de Teatro de Machico.
Um projeto em que Ricardo Brito é o responsável pela concessão do texto e da encenação.
Estimei o espetáculo no seu geral. A aplicação de uma linguagem cómica e bastante física para a comunicação de um tema complexo. Comparações entre a “selvajaria humana” existente dentro e fora do parlamento. Quem é que se salva? Nem o público neste caso, que é confrontado com críticas sobre as suas ações.
Em relação à construção do espetáculo, um texto cativante, uma encenação agregadora e dinâmica, como destaque para as cenas da casa de banho, da luta de almofadas e da pizza.
Não obstante, realço o cuidado para com a excitação em cena, mais precisamente com o momento da interrupção maior. A informação é captada através dos jogos de ironia e de manipulação. Já quando o volume vocal excede, automaticamente, é criada uma barreira que impede essa mesma captação pelo espetador.
A convite da Erregueté - Revista Galega de Teatro, tive a oportunidade de escrever um artigo de crítica relativo ao espetáculo de teatro "«O Grande Incêndio» de Roland Schimmelpfennig", por A Escola da Noite e Sarabela Teatro, para a 109º edição da revista.
Um agradecimento à equipa da Erregueté, em especial ao Afonso Becerra Arrojo, pela oportunidade e confiança.
Um espetáculo em que o erro é tratado por “tu”. A tão tenebrosa “falha”, que arrepia todos os integrantes de uma criação artística quando imaginam essa possibilidade, é assumida e transformada em algo manifestante.
Resultante de uma residência artística, denominada de “FALHA”, com a premissa de explorar a analogia entre a fissura geológica que provocou o surgimento desta massa vulcânica a que chamamos de “Ilha da Madeira”, com o impacto da “fissura” do ATEF, em relação ao contexto artístico e social de cinquenta anos de existência na Região. Um aglomerado de falhas que resultaram no que é hoje, com as consequentes repercussões.
Nuno Pinheiro foi o responsável pela encenação e Lígia Soares a encarregada pela dramaturgia do espetáculo.
Gostei do modo como deram uma nova “roupagem” às falhas consequentes de um projeto artístico. Assumir o “erro”, não como um problema, mas sim como uma “visão prismática” de algo.
Destaco o trabalho plástico do Haikus Studio - Alberto Lage e Beatriz Vieira, com elementos visualmente impactantes e com funcionalidades cénicas igualmente interessantes.
Um resultado cativante, dinâmico e que merece o meus parabéns a toda a equipa.