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Diário de um Espetador

Um espaço dedicado ao comentário dos mais diversos espetáculos e eventos culturais, com destaque para as apresentações teatrais.

Diário de um Espetador

Um espaço dedicado ao comentário dos mais diversos espetáculos e eventos culturais, com destaque para as apresentações teatrais.

“Ondas de Emoção”, por Teatro Pitabel (AO).

A companhia angolana Teatro Pitabel, apresenta-nos um monólogo em que as temáticas do abuso infantil e a opressão perante a mulher são exibidas a cru. Um relato a partir de factos verídicos que pretende “chocar” o espetador e alertar para estas problemáticas que ainda são, infelizmente, vigentes na sociedade em que vivemos.

Esta peça foi apresentada em contexto da programação do ‘Festival Avesso 2025’, com produção da Associação Avesso.

A criação desta obra contou com o texto de Victor Bango Lino Suama, encenação de Carla Esmeralda, iluminação e assistência de Adérito Rodrigues e interpretação de Débora Makiese.

O objetivo dos artistas com esta proposta era de “chocar” o público pela intensidade e profundidade da mensagem, contudo, acredito que a parte do “chocar”, funcionou, mas o restante, ficou aquém do expectado. Falhas estruturais que passo a enumerar e a justificar perante a minha opinião.

O espetáculo inicia de uma forma cativante. Um jogo de máscara inusitado e apelativo pela criação de contraste, no entanto, perde-se o efeito pelo longo período de utilização, acoplado à invariável proposta de jogo.

Numa fase posterior, as propostas gráficas daquilo que seria a representação da violação e do abuso para com o corpo alheio, perderam a força e intenção, pela forma da execução. Por vezes, a opção da exemplificação do assunto que estamos a retratar, leva a uma descontextualização e perda de credibilidade do tema a ser abordado. Neste caso, o extremo foi ultrapassado de tal forma, que se transformou algo, de certo modo, “cómico”.

Propostas de transição entre cenas lentas e de pouco gabarito e as escolhas musicais não foram as mais adequadas.

Em suma, foi um espetáculo que me inquietou, mas não pelos melhores motivos.

“Hamlet Cancelado”, por Núcleo Vinícius Piedade & CIA (BR).

A obra “Hamlet”, de William Shakespeare, é um dos textos mais conhecidos e mais acarinhados da dramaturgia. Uma obra-prima que continua a ser contemporânea, apesar de ter sido escrita há mais de 400 anos.

Uma tragédia em que vingança, os jogos de poder, o sofrimento e a manipulação fixam-se como raízes e criam estabilidade a uma sociedade aparentemente plena, mas que está intrinsecamente podre.

Neste espetáculo, a grande adaptação da obra “Hamlet”, a maior que a cidade já viu, ou alguma vez verá, foi cancelada. Ninguém sabe porquê. Problemas com apoios e patrocinadores, atritos entre a produção e elenco, dificuldade no cumprimento das datas estipuladas, enfim… as opções são variadas. Inconformado com tal desfecho, Vinicius, decide construir a sua própria adaptação, a partir da adaptação que seria apresentada. Utiliza excertos do texto original, apresenta propostas de ação, de idealização, de luz, de cenário, de figurinos, etc.. A tentativa de não deixar morrer o trabalho que tanto custou a ser concebido.

A peça esteve inserida na programação do ‘Festival Avesso 2025’, promovido pela Associação Avesso.

Este texto teve como responsáveis Flávio Tonnetti e Vinícius Piedade e a encenação ficou a cabo de Vinícius Piedade, com assistência de encenação de Fábio Vidal.

Este é o quinto monólogo de Vinícius Piedade. Uma procura, e passo a citar, pela: “discussão conceptual sobre o sujeito contemporâneo e a sua relação com a sociedade moderna.”.

Uma proposta textual interessante na forma como desconstruiu o texto de Shakespeare e incorporou e adaptou vários tópicos e problemáticas da atualidade, tanto na sociedade em geral, como no contexto teatral. Tive um gosto especial pelo jogo cénico que tomou com as frutas.

Por outro lado, creio que a repetição de gagues e as mudanças abruptas e consecutivas de pensamento e de história, levavam a certa altura, a um cansaço e desconexão do público para com a ação. Manter um único ator a captar a atenção de uma plateia, por 1h30, apesar do dinamismo e de representar vários personagens, é um objetivo bastante audacioso. É possível, mas não é nada fácil.

“«A Farsa de Inês Pereira», de Gil Vicente”, por Companhia Contigo Teatro.

Após um arrastado período de pausa, retorno ao Diário com um clássico de Gil Vicente. “A Farsa de Inês Pereira” é uma comédia satírica em que nos é desvendada a história de Inês Pereira, jovem protagonista da história, e das suas complicadas tentativas de junção conjugal.

A procura do lucro através de arranjos conjugais, aparências que escondem os reais feitios e ações e a manipulação perante proveito próprio. Estes são alguns dos temas que Gil Vicente procurou criticar com a sua obra. Já diz a expressão e bem: “ridendo castigat mores”.

Esta produção contou com o texto original de Gil Vicente e com encenação de Onivaldo Dutra Oliveira.

Já não se consegue contar pelos dedos quantas vezes esta peça já ganhou vida nos palcos de todo país – e não só. A Contigo Teatro, companhia com forte trabalho no setor educacional, decidiu que a apresentação do espetáculo seguisse com o linguajar original do século XVI. Uma opção nobre, mas, ao mesmo tempo, perigosa pela dificuldade na compreensão do enredo e pela propícia desconcentração do público – algo que, ao meu ver, aconteceu.

Notei que o espetáculo era acompanhado de um “tom sombrio”, tanto pelas opções de cenografia, de responsabilidade de José Luís Fernandes, como também na composição musical, através do trabalho de Márcio Faria. Uma opção interessante, com sentido lógico e que ao mesmo tempo criou-me certas dúvidas.

Começo pelo trabalho de cenografia, do qual elogio a idealização da figueira e da restante estrutura que a acompanha – como a cama de Inês. Por sua vez, questiono a estrutura metálica por cima da árvore. Confesso que com as suas diferentes ondulações não compreendi o seu significado. Por momentos, pensei que fosse um espelho que incorporasse o público na cena, pelo ângulo em que estava colocado, contudo, esse efeito ficou muito aquém.

Em relação à componente musical, devo admitir que até ao momento em que escrevo este comentário, a opção musical tão “pesada” para o momento do baile ainda me cria algumas “comichões”. Com isto não quero contestar a qualidade da opção, apenas partilho a minha sensação como espetador. Um contraste muito acentuando entre a sonoridade e a expansão dos movimentos.

Para finalizar, partilho uma opinião da sessão a que assisti. Tive de oportunidade de ver o espetáculo numa “sessão para escolas” e confesso que fiquei bastante impressionado com o comportamento dos jovens espetadores. Apagam-se as luzes para iniciar o espetáculo e os instintos selvagens dos espetadores elevaram-se e um uivar e assobiar ensurdecedores que dominaram por um longo período de tempo. Uma falta de ética e de saber estar que, até à data, nunca havia assistido com tal nível. Mais uma prova que deve levar a todos os artistas e profissionais da educação a repensar como devemos proceder na criação e ensinamento de públicos.

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