Para terminar a minha pequena agenda cultural de três espetáculos teatrais na cidade de Lisboa, a peça escolhida foi a versão portuguesa de uma obra clássica do West End, em Londres. Uma comédia em que o imprevisível e o ridículo são dominantes do início ao fim.
Houve um assassinato na mansão da Família Haversham. Quem é o culpado? Nesta peça de estreia do Núcleo de Teatro da Sociedade Cultural e Recreativa do Sobralinho, apesar dos consecutivos obstáculos que enfrentam, elenco e equipa técnica batalham, incessantemente, para conseguirem apresentar a sua obra completa. Será que conseguirão?
Este espetáculo foi escrito por Henry Lewis, Jonathan Sayer e Henry Shields. Nesta versão portuguesa, Nuno Markl foi o responsável pela tradução e a encenação esteve sob a visão de Hannah Sharkey (encenadora da peça no West End) e Frederico Corado (encenador residente).
Uma espetáculo muito bom, não só pelos jogos de situação, como também pelo trabalho técnico. Mal o público entrar na sala de espetáculos e o caos começa a se instalar. Um compilar incessante de problemas que não permitem o público desligar um único segundo do que acontece em cena. O trabalho interpretativo enriqueceu graças ao domínio dos silêncios e o controlo dos tempos do público. Confesso que me conseguiram tirar muitas gargalhadas.
Destaco o trabalho técnico desta produção, principalmente, a componente cenográfica. As várias surpresas que dali surgem são incontáveis e de tirar o chapéu (infelizmente, não consigo mencionar responsáveis, porque não encontrei a menção dos mesmo na ficha técnica - pessoalmente, acho uma falta de respeito).
Creio que o sistema de microfones estava deficitário, pois havia momentos em que era bastante difícil compreender o que era dito em palco. Os microfones presentes na boca de cena não eram suficientes.
A sessão que assisti teve um gosto especial. O dinheiro da bilheteria foi para apoiar a instituição APOIARTE - Casa do Artista. Foi bonito ver o Teatro Tivoli BBVA cheio por uma causa tão nobre.
A segunda peça que integrou a minha pequena agenda cultural de espetáculos teatrais na cidade de Lisboa, foi a tão comentada adaptação de Diogo Infante do clássico, “Sonho de uma Noite de Verão” de William Shakespeare. Uma peça em que o jogo de enganos é o pilar dos conflitos. Trocas de casais, amores e desamores e a exploração do ridículo, compõem esta obra fantástica (no duplo sentido). Algo que diferencia esta encenação das restantes, é a incorporação de temas musicais portugueses, dos mais diferentes estilos, que marcaram gerações e transformam esta história shakespeariana numa peça musicada (ATENÇÃO! Não confundir com MUSICAL).
Como referido anteriormente, o encenador deste projeto é Diogo Infante, que teve como companheiros auxiliares de criação, Fábio Gil como assistente de encenação, Augusto Sobral na tradução do texto e Artur Guimarães na direção musical.
Esta é a minha peça preferida de Shakespeare e, se a memória não me engana, foi a peça que mais vezes vi ser revivida em palco. Achei bastante interessante esta “versão portuguesa”. As músicas, escolhidas a dedo, completavam o pensamento da obra. As interpretações das mesmas e os jogos consequentes, também são elementos de destacar, como a primeira noite em que Hérmia e Lisandro dormem no bosque e a mistura musical protagonizada por Helena, Demétrio e Lisandro. A música ao vivo deu uma outra vida à encenação.
Adorei a representação da micro peça “Píramo e Tisbe”. A exploração do ridículo chegou a um patamar muito, muito interessante, o que me levou a gargalhadas incontroláveis.
Destaco o trabalho de figurinos de Dino Alves, mais concretamente com os seres místicos (Titânia, Oberon, Puck e as fadas).
Inicialmente, estranhei o uso da tela de projeção - não achei que enquadrasse esteticamente com a proposta - mas, a partir da exploração na floresta, o jogo fez todo o sentido. A conceção do cenário virtual esteve sob responsabilidade de João Alves e Bruno Caetano. Aproveito este ponto para elogiar o jogo com as fadas nos alçapões.
O desenho de luz de Cristina Piedade, aprimorou cada um dos tópicos mencionados anteriormente.
Ao longo da peça tive alguma dificuldade em compreender o que era dito, pela alta velocidade em que os intérpretes debitaram o texto. Confesso não compreender a opção e acredito que esta escolha dificulta a compreensão do enredo pelo público.
Um fim de semana bastante especial, na companhia do meu amigo Pedro Araújo Santos, em que percorremos uma pequena agenda cultural de três espetáculos teatrais na cidade de Lisboa. O primeiro foi “A Família Addams - O Musical”, espetáculo internacional, criado a partir das personagens assombradas idealizadas pelo cartunista norte-americano, Charles Addams. Uma família excêntrica, sombria e cómica, em que Wednesday Addams, apaixona-se por um rapaz que é o oposto dela e dos seus familiares. Um aglomerado de jogos e conflitos entre as duas famílias. Por outras palavras, podemos dizer que, “os opostos atraem-se”.
Nesta versão portuguesa, como responsáveis pelos setores, ficaram Ricardo Neves-Neves pela encenação, Ana Sampaio pela tradução do texto, Artur Guimarães pela direção musical, Michel Simeão pela adaptação das canções e Rita Spider pelas coreografias.
Confesso que não sou fã de musicais e o meu conhecimento por este género teatral é-me bastante limitado, no entanto, devo dizer que fiquei bastante surpreendido com esta produção.
Com todas as palavras, posso afirmar que este é um espetáculo para toda a família. A idealização de Ricardo Neves-Neves cativa a atenção de públicos de todas as idades. Falo de um trabalho de composição cénica bastante interessante, com uma dinâmica constante e apelativa. Um trabalho com elementos bastante próprios que incrementaram a autenticidade da obra. As duas horas de apresentação passaram a voar!
Boa performance dos intérpretes, tanto na componente teatral, como na musical. Quero também destacar o trabalho de cenografia de Catarina Amaro, pela grandiosidade, misticismo e mobilidade em cena (ex: escadaria da casa dos Addams), os figurinos de Rafaela Mapril, pelos detalhes incorporados nos mesmos (ex: caixa torácica da avó) e o desenho de luz de Paulo Sabino, pela profundidade que acrescentava à cena (ex: tempestade na casa dos Addams). Um trabalho geral muito bem conseguido. Os meus parabéns a toda a equipa!
Este é um comentário bastante especial para o “Diário de um Espetador”. Com este já são contabilizados 100, desde o seu início em 2023. Um projeto que tenho bastante estima e espero continuar enquanto tiver forças para tal. Viva ao Teatro e viva à Arte e Cultura!
RECICLAR, REPRODUZIR, ROUBAR, ADAPTAR, REDUZIR, RECRIAR e ORIGINAL.
Numa primeira leitura, estas palavras podem parecer soltas entre si, contudo, a companhia Mákina de Cena tratou de alinhavar todos estes conceitos e criou um espetáculo, inicialmente idealizado em 2021, a partir de excertos de obras de outros autores, num formato performativo, em que “o que é do outro”, ou, por outras palavras, “o que já foi apresentado”, ganha uma nova vida e contexto com a ADAPTAÇÃO.
Este projeto esteve sob responsabilidade de criação e interpretação de Carolina Santos e Susana Nunes.
Uma dúvida interessante paira no ar: ADAPTAÇÃO de trabalhos de terceiros é ROUBO? Este caso mostra que, apesar da sua composição de fragmentos anteriormente apresentados, o modo como é reconstruída a estrutura dramatúrgica e o novo contexto em que são inseridos, ganham uma nova dimensão, dando origem a um projeto ORIGINAL.
Um trabalho assente em excertos experimentais, com foco para o trabalho corporal e a quebra da 4º parede. Destaco a criação vídeo e o mapping, de responsabilidade de João Catarino, como a utilização de televisões antigas para o tal efeito.
Uma experiência diferente, que possibilitou dar a conhecer aos espetadores a existência de outros espetáculos e artistas que, caso contrário, não saberiam da existência.