O quão importante são as memórias? Recortes da vida que guardamos como marcos da nossa existência. Experiências e sensações que fomentam o nosso conhecimento e moldam a nossa personalidade, o nosso EU.
Infelizmente, por doença, é possível perder essa capacidade tão preciosa. O alzheimer e a demência, são exemplos de doenças cerebrais degenerativas que afetam a faculdade de recordar. A vida sem memória é como uma tela em branco. Falta algo… falta cor!
Para além daquele que se encontra num destino de perda constante da memória, também existem aquele que cuida, aquele que protege e auxilia. O cuidador informal, elemento fundamental ao longo de todo processo. Neste espetáculo, o Teatro Loucomotiva, apresenta-nos uma leitura segundo estas duas perspetivas.
A conceção textual e direção estiveram a cabo de Alexandre Oliveira.
Um trabalho muito interessante que joga entre a realidade e o imaginado. A viagem por uma mente inconstante, com todas as suas peculiaridades associadas. O retrocesso em luta direta com o progresso e a distopia do espaço tempo. Um ótimo equilíbrio entre os trabalhos de fisicalidade, máscara e contracena. O trabalho interpretativo de Alexandre Oliveira e Jaime Castelo Branco é louvável. A cumplicidade entre os dois resulta em algo delicioso para os sentidos do espetador.
Destaco a opção de incorporação das andas, o que realçou a presença das personagens, os jogos cénicos com relação ao cenário e adereços (com o meu gosto particular para a interação com o candeeiro de rua) e o detalhe da criação do ambiente sonoro e musical ao vivo, de responsabilidade de Francisco Ferreira (elemento importante para acompanhar o público em tal viagem).
Presenciei o processo de desenvolvimento da doença alzheimer por um familiar muito próximo. Um tema duro para muitos e, particularmente, toca-me profundamente. Com este espetáculo, descobri um certo “BELO” em tudo isto, uma luz ténue que surge no fundo do túnel. Os meus parabéns a toda a equipa!
Apresentada em contexto das celebrações do ‘Dia Mundial do Teatro 2025’, esta produção da Seiva Trupe - Teatro Vivo, conta a história de um universo paralelo, em que o Sol, não se destruiu, mas se decompôs em raios do espectro de cores. Num jogo de viagens à memória, quebra da perceção entre ilusão e realidade e a exploração da temática das alterações climáticas, uma Rapariga, ajudada pelo padre Himalaya, em tempos, inventor da primeira máquina solar, almeja construir um equipamento capaz de concentrar todo o espectro de cores e reconstituir a luz branca, retomado o mundo à normalidade.
Esta peça surge a partir de uma ideia original de Sandra Salomé, também responsável pela encenação, e a criação textual esteve sob o comando de Pedro Leitão.
Recentemente, assisti à produção “Coro das Águas”, da Seiva Trupe - Teatro Vivo e, como já mencionado no “Diário de um Espetador”, não gostei nada. Como acredito que em relação às peças de teatro, o público não deve julgar apenas com um trabalho e deve dar uma segunda oportunidade aos criadores e às companhias, assisti a mais esta produção e tenho a dizer que fiquei satisfeito com o que vi. Não farei comparações entre as duas, pois seria “comparar o incomparável” (temas diferentes, estilos cénicos diferentes, equipas diferentes, etc.).
Uma viagem atrativa, onde as artes performativas e a ciência se unem de forma lúdica e cativante. Destaco o trabalho de cenografia de Cristóvão Neto, com as maquinarias e as possibilidades de jogo com os adereços cénicos. Outro nome a destacar é o de Paulo Marinho, com o desenho de luz e os seus efeitos fantasiosos. Uma experiência que me colocou dentro de um filme de ficção científica - por outras palavras, “ao vivo e a cores”.
Nisto tudo, uma pequena dúvida surgiu-me. Questiono o porquê da existência de elementos brancos em cena, visto que a procura das personagens ao longo da peça é a reconstrução da luz branca. Se não estou em erro, os materiais têm as cores que têm, porque não as conseguem absorver. Como pode haver branco, se não a concentração de todas as cores ao mesmo tempo? - se estiver a ter pensamento errado, peço que me corrijam, por favor.
Em celebração aos 30 anos da companhia Escola de Mulheres e o assinalar dos 5 anos da morte da sua fundadora, Fernanda Lapa, um símbolo feminino no teatro em Portugal, esta obra surge como homenagem a essa grande mulher e toda a força feminista que representa. Por coincidência, assisti a esta peça num dia bastante especial para os amantes de teatro, o Dia Mundial do Teatro, a 27 de março. Um compilar de celebrações!
Com o título inspirado na obra “Deseja-se Mulher”, de Almada Negreiros, esta foi também a primeira encenação profissional da homenageada. Uma peça que celebra a vida e obra de Fernanda Lapa e revive a alma e força dos temas que a inquietavam.
A conceção textual teve como responsável Ana Lázaro e a encenação esteve sobre a visão de Cucha Carvalheiro.
Foi o meu primeiro contacto com o trabalho da Escola de Mulheres. Já havia escutado opiniões sobre a companhia e o trabalho da Fernanda Lapa, mas nunca o tinha vivenciado. Tive esta primeira oportunidade num momento especial. Um momento de homenagem de alguém importante, não só para todos aqueles que passaram pela companhia, como também para todos aqueles a quem os seus trabalhos influenciaram de alguma forma.
Um espetáculo bem construído, com um elenco escolhido a dedo e uma estética bastante interessante. Destaco o trabalho de cenário e figurinos de Ana Vaz. Uma conjugação entre o ELEGANTE e o JOGÁVEL, do qual gostei bastante. Também destaco o tipo de humor utilizado. Apesar de em certos momentos, o lado mais carnal se sobressair, em momento algum descaiu para a badalhoquice. ou para a comédia fácil. Por outras palavras, podemos adjetivar como um “humor refinado”.
Para concluir, mais um outro momento que me marcou nesta apresentação, foi escutar pela voz de uma outra grande mulher do teatro, Cucha Carvalheiro, a Mensagem do Dia Mundial do Teatro 2025, de autoria do encenador grego, Theodoros Terzopoulos.
A subjetividade do BELO, da FELICIDADE, da PAIXÃO, das PEQUENAS AÇÕES, do OCULTO e da PERCEÇÃO. Temas que nesta obra ganham uma outra dimensão de observação e compreensão, pelo olhar do cineasta napolitano, Paolo Sorrentino - referência no cinema italiano contemporâneo.
Numa viagem épica pela vida de Parthenope, jovem rapariga que encara os "jogos do destino" com o seu devido ritmo, o atento cuidado e a essencial observação, num paralelismo com os misticismos, as peculiaridades e os encantos de Nápoles - uma bela epopeia napolitana.
Como já mencionado, o realizador deste filme é Paolo Sorrentino, sendo ele também responsável pela criação do roteiro. É de destacar a responsabilidade da direção de fotografia de Daria D’Antonio.
Como descrever tal obra prima? Uma questão que me paira na consciência até ao momento em que escrevo este comentário. Um filme divinal, em que a dramatização, a filosofia e a fotografia, mesclam-se nas proporções ideais. A cada cena ficava mais deslumbrado com o trabalho, não só pela sua estética, como também pelo jogo de ações. Uma delicadeza no trabalho da sensualidade e uma coletânea de críticas profundas e sem artifícios (os silêncios e as imagens exprimem-se por si só). Propostas de inúmeras reflexões que dialogavam diretamente com os espetadores - a exposição de todos os ângulos do "Paraíso".
A ironia, a filosofia e a densidade das personagens, são algumas das componentes que tornaram este filme um dos meus favoritos. Não conhecia o trabalho do Paolo Sorrentino, no entanto, felizmente, passei a conhecer da melhor forma. Não só a temática, mas também o método de estruturação do enredo cativaram-me imensamente. Desde já, aconselho vivamente a visualização desta obra.
É importante mencionar que este projeto foi um dos nomeados para o prémio ‘Palma de Ouro’, do Festival de Cannes 2024.
Integrada na lista de companhias convidadas pelo antigo Ministro da Cultura (Pedro Adão e Silva) e pela Comissão para as Comemorações dos 50 Anos do 25 de Abril, a Seiva Trupe - Teatro Vivo, apresenta um espetáculo que revive o espírito da revolução e alerta para as ameaças contemporâneas contra a Democracia e as suas fragilidades.
Neste projeto, Castro Guedes, foi quem idealizou e concebeu as componentes textual e de encenação. Pelo que foi anunciado, esta será a sua última produção com a companhia.
Foi a primeira vez que abandonei um espetáculo a meio. O único até então que me apeteceu fazer o mesmo, foi a peça “Ilha de Morel”, de Fernando Guerreiro, numa coprodução entre o teatromosca e os Cães do Mar. Para minha sorte e de mais gente que assistia, a peça “Coro das Águas”, tinha um intervalo, o que permitiu que saíssemos sem perturbar os intérpretes e o restante público resistente. Uma experiência péssima, que desejo não voltar a repetir.
A meu ver, o espetáculo apresentou uma sequência de falhas que levaram a essa fadiga - comentarei o que assisti, ou seja, a primeira parte.
Questiono, logo ao início, a pertinência da ação da retirada tardia dos panos que tapavam a estrutura/parede no fundo do palco. Como referi, um momento bastante longo, que, caso a justificação seja a criação de ambiente para a restante peça, acredito que não resultou.
Generalizo neste ponto a minha opinião em relação à componente textual. Na sua génese, uma ideia interessante, mas a sua concretização, com a utilização excessiva de metáforas e analogias, além da complexa composição textual, levaram à grave falha na comunicação entre cena - público. Se intelectualizo o meu discurso em excesso e tal mensagem não é retida, nem processada pelo público, qual é o objetivo do que estou a fazer?
A cena entre a Avó, a Mãe e a Filha, foi uma tortura. Confirmo que as intérpretes tem uma boa projeção e dicção, mas o exagero dessas faculdades em cena levaram a um incómodo sonoro e uma desconexão com a ação devido à falta de emoção real (falta de genuinidade, algo demasiadamente técnico, mecânico e premeditado), para não falar do dramatismo exagerado, que, convenhamos, é algo datado.
A cena do Senhor Sinistro, gostei e reconheço que foi uma “lufada de ar fresco” em relação às restantes cenas. Dinâmica, crítica e cómica.
Um ponto que é facilmente modificável ao longo das restantes apresentações é um maior equilíbrio no volume do sistema de som. A certa altura, estava muito alto e era incomodativo.
Por fim, a utilização de adereços, como o balão preto, as pétalas que vinham da teia e o batizado com o balão de água, considero que desvirtuaram o sentido pretendido.
A minha primeira experiência com o trabalho da Seiva Trupe - Teatro Vivo, fica marcada como algo triste e desapontante.
O conceito de FELICIDADE, segundo a sua descrição no dicionário, é o “estado da pessoa feliz”, ou seja, a sensação positiva, alegre e de satisfação de um indivíduo. Para alcançar tal objetivo, a pessoa deve percorrer um caminho individual de encontro ao seu “estado de felicidade” - cada um sabe do seu. Em contraste, existe a DOR, uma sensação física ou psicológica que proporciona o sofrimento, a má disposição e o desconforto. Estados de espírito opostos que se complementam um ao outro. Como se costuma dizer, “os opostos atraem-se”.
A partir da pesquisa ao Serviço de Reumatologia da ULS de Coimbra, com entrevistas a profissionais do serviço e a pacientes com doenças reumáticas e músculo-esqueléticas, a equipa da Marionet criou este espetáculo com o intuito de informar e aproximar empaticamente o público sobre estes estados de doenças que, visivelmente custa-nos encontrar alguma deformidade, mas, para quem as sofre, a procura do tal “estado de felicidade”, independentemente da circunstância em que se encontram, é algo fundamental.
O projeto teve como responsável pela encenação, Mário Montenegro. A componente dramatúrgica contou com a colaboração de vários elementos da equipa, como Beatriz Boleto, Carolina Costa Andrade, Inês Dias, Maria José Pessoa e o próprio Mário Montenegro, além da restante equipa da Marionet que teve um papel fundamental na discussão dessas mesmas ideias.
Um espetáculo com uma componente informativa bastante interessante. Não foi o que mais empatizei, mas gostei. Confesso que pouco, ou nada, conhecia sobre o tema das doenças reumáticas e músculo-esqueléticas e passei a ter algum conhecimento em relação a tais estados. Quanto à duração, não achei longo. As dinâmicas e jogos de cena ajudaram a suavizar a absorção da informação pelo público.
Destaco os trabalhos de vídeo (Laetitia Morais) e música e sonoplastia (Marcelo dos Reis), como auxiliares interessantes na construção da viagem proposta. Um outro ponto que gostava de partilhar é a minha percepção de uma nova imagem de marca da Marionet como a partilha com o público de fatias de bolo no final de cada apresentação - elemento que já existiu na peça “iMaculada” (não sei se noutros mais).
Como sugestão, visto que contactaram com pessoas especialistas da área e outros que convivem diariamente com tais sintomas, seria interessante, após uma das sessões, existir uma pequena tertúlia, com pessoas convidadas, que viessem a explicar mais detalhadamente o tema e relacioná-lo com os exemplos da peça e não só. Esta ideia surge de uma experiencia já vivenciada numa proposta semelhante com a companhia Mente de Cão, após a apresentação do espetáculo "Todas as Coisas Extraordinárias".
Aproveito para partilhar o meu desagrado com a falta de respeito do público em relação à utilização de equipamentos eletrónicos no meio das apresentações. Luzes e sons que incomodam quem está em performance e quem assiste, como elementos distratores. Uma consciência cívica, que na minha opinião, deve ser mais reforçada. Como é percetível, infelizmente, tive de cumprir o papel de “passa recados” a uma senhora que incomodava com o seu telemóvel, não só a mim, mas também a outros espetadores que ali estavam. Não é só a malta jovem que não larga os telemóveis.
Em celebração do centenário de Carlos Paredes, uma figura incontornável da música portuguesa e um dos grandes mestres da guitarra portuguesa, recordamo-lo através do magnífico repertório musical que nos deixou, para além de convicções estéticas em relação à música em Portugal e convicções políticas numa época regida pela censura do pensamento.
O espetáculo “Respirar Paredes”, como o próprio título sugere, permite viajar pela vida deste gigantesco músico que, por muitos é adorado e por outros desconhecido, que com esta experiência passam a conhecê-lo e adorá-lo.
Este recital performático teve como responsáveis pela coordenação, João Paulo Janicas (guião e estrutura dramatúrgica) e Simão Mota (estrutura musical).
Confesso que apenas conhecia superficialmente o nome e a obra de Carlos Paredes, mas este espetáculo permitiu ampliar o meu leque de conhecimento em relação a esta personalidade.
A componente dramatúrgica centrou-se na recolha de depoimentos, poemas e outros textos que contavam o percurso de Carlos Paredes e o contexto político e social em que vivia. Reconheço o meu gosto pelo formato de recital performático, uma união de duas ou mais artes performativas - neste caso, apenas o teatro e a música -, que se complementam e dinamizam a performance e a mensagem a transmitir ao público.
Quanto à componente teatral, tenho a dizer que ficou aquém. Trocas de personagens confusas sem códigos perceptíveis para o público (mil e um Carlos Paredes que já não sabia quem era quem), pelo menos a sessão em que fui, uma consecutiva falha no texto, com pausas de esquecimento que quebravam o ritmo e a linha emocional do espetador e, apesar do intimismo da apresentação (público reduzindo e bastante próximo dos intérpretes), havia dificuldade na escuta do que certos oradores diziam.
Em contraste, realço o excelente trabalho da componente musical. A conceção musical de Fábio Almeida, Simão Mota, Tiago Rodrigues e Vasco Rodrigues - os elementos do Quarteto de Coimbra -, mais a cooperação de Hugo Oliveira, João Fragoso e Ofélia Libório, que deliciaram os ouvidos de qualquer espetador. Uma performance brilhante que permitia os instrumentos comunicarem de modo que arrepiava.
Após a consagração de “Melhor Filme Estrangeiro”, nos ‘Oscars 2025’, com “Ainda Estou Aqui”, Walter Salles reforça o seu posto como um dos grandes cineastas brasileiros e contemporâneos.
Revisitando a história, mais precisamente a 1998, estreava nos cinemas, “Central do Brasil”, filme que viria a ser nomeado e vencedor de inúmeros prémios internacionais, entre eles o ‘Urso de Ouro’ do 'Festival de Berlim' de “Melhor Filme” e o ‘Urso de Prata’ para a “Melhor Atriz”, a Fernanda Montenegro.
Dora (Fernanda Montenegro), ex-professora que ganha a vida a escrever cartas a pessoas analfabetos numa estação de comboios, entrelaça o seu destino com o de Josué (Vinícius de Oliveira), criança de nove anos, filho de uma cliente que teve o triste fado de morrer num acidente diante o seu filho. Sozinho e perdido no Rio de Janeiro, Josué acaba por embarcar numa longa e difícil jornada ao Nordeste brasileiro, com a ajuda de Dora, para encontrar o seu único laço familiar vivo, o pai que nunca chegou a conhecer.
Esta obra teve Walter Salles como realizador e o trabalho de construção do roteiro de João Emanuel Carneiro, Marcos Bernstein e o próprio Walter Salles.
Um filme emotivo, com uma história que viaja pelas entranhas do Brasil. A descoberta de uma região peculiar dos estereótipos “praiano e tropical brasileiros”. Um clima árido, com crenças, rituais e vivências bastante tradicionais. Destaco o fantástico trabalho de interpretação dos protagonistas. Uma conexão bastante forte e a exploração de diferentes camadas interpretativas.
Confesso que foi interessante comparar a Fernanda Montenegro da altura com a de hoje. As similitudes da filha, Fernanda Torres, com a mãe, são muito fortes. Como diz o povo e com razão, “tal mãe, tal filha”.