O TRABALHO é um pilar estrutural na vida das pessoas. Desde pequenas, na escola, são habituadas a este tópico e até ao fim das suas vidas conviveram com tal. A ação para a criação ou obtenção de algo pretendido, que pode surgir por estímulo próprio, ou, na maioria dos casos, por conta de outrem. A certo ponto, o TRABALHO incorpora-se tanto em nós, que lhe damos prioridade para tudo, inclusive no ato de VIVER.
Para combater tal problema e, principalmente, para suprimir o desejo de massificação da produção, as máquinas começaram a substituir as pessoas nas realizações de tarefas. Mais produtivas, menos horas de descanso, menos reclamações, etc. - uma panóplia de vantagens que levam à redução de custos.
PROBLEMA! Sem trabalho, as pessoas não ganham dinheiro. Como podem as pessoas viver e aproveitar a vida sem dinheiro, num mundo que se rege pelo dinheiro?
Neste projeto, Igor Gandra esteve como responsável pela conceção do texto, da encenação e da cenografia, com assistência de encenação de Carla Veloso.
A nível estético o espetáculo era muito cativante, com inúmeros objetos manipulação e um cenário que permitia vários jogos de interação - sob coordenação de Igor Gandra e Eduardo Mendes. Destaco a conceção e a manipulação dos braços mecânicos e da marionete humanóide de tamanho real - do que percebi, a especialidade do trabalho do Teatro do Ferro.
Confesso que o que menos gostei, foi a escassa energia em palco. Um espetáculo que, pela sua proposta, tanto de texto, como de ação, pedia uma maior extroversão. Creio que o uso constante dos microfones de lapela tenha sido um dos fatores para essa baixa de energia - tanto que em certos momentos, principalmente no canto, era difícil a compreensão do que estava a ser dito.
Todas as crianças têm o sonho de, um dia, experienciar as vidas encantadas das suas princesas e heróis favoritos. Quando crescem, esse desejo nunca se apaga, apesar do confronto com a realidade.
Ani (Mikey Madison), jovem trabalhadora do sexo, tem a sorte de encontrar o seu “príncipe encantado”, Ivan (Mark Eydelshteyn), filho de um oligarca russo - tipicamente apelidado de “filhinho do papá” - que a transforma numa “Cinderela da Nova Geração”. Um casamento inusitado, atribulado por drogas, festas e muito sexo, que ao chegar aos ouvidos dos pais de Ivan, procuram reverter o matrimónio no menor tempo possível, com auxílio dos seus funcionários.
Este projeto teve como responsável pela realização e a criação do roteiro, o cineasta americano, Sean Baker.
Confesso que nos primeiros minutos do filme, por momentos, acreditei que havia sido enganado e que me deparava com um “filme pornográfico disfarçado”, contudo, a obra de Sean Baker, vai muito além de meras cenas sexuais. A densidade das personagens e as suas inúmeras camadas, um guião denso, crítico, cómico e fidedigno a reações e tempos reais, interpretações cativantes, diálogos que curiosamente mesclavam o inglês, o russo e o armênio e jogos teatrais muito interessantes, com destaque para o confronto entre Ani e os funcionários da família Zakharov (Toros (Karren Karagulian), Garnik (Vache Tovmasyan) e Igor (Yura Borisov)). Apesar de não ter um enredo muito complexo, não peca no estereótipo de relações básicas e com resoluções de conflitos rápidas, o que cria uma constante incógnita no passo seguinte.
Filme vencedor da ‘Palma de Ouro 2024’, no consagrado ‘Festival de Cannes’ e indicado a vários outros prémios internacionais, com destaque para a vitória de Mikey Madison como “Melhor Atriz Principal”, nos ‘Prémios BAFTA’ - muito merecido pelo seu ótimo desempenho.
A matança do porco é uma tradição antiga, que, como o próprio nome indica, tem como base o sacrifício de um suíno, para que a sua carne sirva de sustento alimentar durante o ano que se segue à família que o criou. Uma ação comum, principalmente nas zonas rurais, que, com o passar do tempo, tem caindo em desuso - em casas mais tradicionais ainda se pratica. Um ritual familiar que se herda de pais para filhos. Um ato violento que se junta a um vasto leque de outros rituais familiares com o mesmo preceito.
Esta peça da Ritual de Domingo, faz analogia entre o porco e o humano, a partir da história de uma família assombrada por uma figura opressora - o pai - que no seu desenrolar, expõe as relações de poder e submissão no núcleo familiar, os choques geracionais e a fonte da violência humana, presentes em todos nós - uns mais flagrantes, outros menos.
Esta obra teve como responsável pela sua criação textual e cénica, Sónia Barbosa.
Como já esperando, um espetáculo violento, com poucos filtros, que apresenta as várias faces da opressão, como a submissão sobre a hierarquia familiar, o assédio, a vingança, etc. Uma filosofia interessante - a meu ver - que se centra na consciencialização do consentimento na realização do ato violento.
“O maior porco, é aquele que sabe que é porco”.
Destaco os jogos teatrais a partir dos diferentes objetos e a execução do ritual de sacrifício. Um cenário interessante, de Ana Limpinho, com destaque para as várias fases de mutação da mesa do ritual. A música ambiente, de Ana Bento, leva o espetador a um local estranho, macabro e em constante foco.
Tive o prazer de poder voltar à sala de espetáculos do Teatro Académico Gil Vicente (TAGV), não para assistir a uma peça de teatro, mas sim para ver um filme. Não é a primeira vez que o faço neste espaço, tendo-o experienciado com os filmes “Os Fabelmas”, de Steven Spielberg e “A Baleia”, de Darren Aronofsky - ou seja, filmaços!
Seguindo a tradição de grandes obras cinematográficas, existiu a possibilidade de assistir um dos filmes mais “badalados” e comentados nos últimos tempos. A produção do realizador brasileiro, Walter Salles, “Ainda Estou Aqui”, conta a história da reinvenção, superação e luta de Eunice Paiva, esposa de Rubens Paiva, ex-político do partido trabalhista, após estes serem alvos do olhar impiedoso do regime ditatorial militar brasileiro. Mãe de cinco filhos, vê-se obrigada a assumir as rédeas da família após a sua vida lhes desafiar com uma volta de 180 graus.
Um filme duro e emotivo, que nos coloca na realidade de medo e suspeita constante de um regime autocrático. Um elenco incrível, com um trabalho de interpretação muito interessante, com jogos de silêncios que incrementaram um estado de tensão no espetador de forma incrível.
É importante destacar que a realização, como já referido, esteve sob coordenação de Walter Salles e o roteiro sob o olhar de Murilo Hauser, Heitor Lorega e Marcelo Rubens Paiva - filho do casal Eunice e Rubens Paiva.
Devo destacar o magnífico trabalho de duas gigantescas atrizes: Fernanda Torres e Fernanda Montenegro - como diz o povo e com razão, “tal mãe, tal filha”. A componente do silêncio que ainda agora descrevi, algo difícil e minucioso de compreender e aplicar na interpretação, é fortemente dominada por ambas - não me surpreende as nomeações e vitórias das mesmas a grandes prémios. Quero realçar a aparição de Fernanda Montenegro, apesar de curta e sem uma única réplica, a sua expressividade furava a lente da câmara e o ecrã do cinema e nos apertava as gargantas. Em traços gerais, uma produção espetacular.
Aproveito para deixar um comentário em relação à sala de espetáculos do TAGV. Apesar da sua boa dimensão e qualidade na componente técnica, considero que a mesma peca no que diz respeito às suas cadeiras, principalmente, quanto à posição em que estão distribuídas. Como as mesmas estão simetricamente paralelas umas às outras e a inclinação da sala não é muito acentuada, é normal que um espetador de grande dimensão ao se sentar na cadeira da frente, irá bloquear, parcialmente, a visão do espetador que estiver atrás - confesso que é algo bastante incomodativo. Um problema estrutural que afeta a experiência do espetador, principalmente se a sala estiver com a lotação em bons números.
Os três pilares fundamentais na composição de uma Sociedade: PROSPERIDADE, ABUNDÂNCIA e GENEROSIDADE. A triangulação perfeita. Caso um destes três pontos deixe de funcionar na sua plenitude, o CAOS instala-se. A ÁRVORE DA VIDA, gerada a partir da semente da ESPERANÇA, nasce e desenvolve-se seca. Quem é o culpado de tal acontecer? A semente que está contaminada, ou de quem teve a responsabilidade de a cuidar?
Um espetáculo com forte inspiração na obra clássica de Samuel Beckett, “À Espera de Godot”, retrata o absurdo estado de questionamento de dois jovens, enclausurados e vigiados num experimento, que procuram compreender o estado em que vivem e sobre que diretrizes.
Este projeto teve como responsável pela dramaturgia e encenação, Francisco Lobo Faria.
Um trabalho que se sustenta nos campos da Poesia e da Filosofia, com questões bastante interessantes sobre o contexto social em que estamos inseridos e a reflexão da influência do OUTRO nas nossas escolhas, que, pessoalmente, acredito ser mais interessante na componente literária, que na vertente de espetáculo. Um texto denso que se perdia com as consecutivas adições de questões, parábolas, etc.
Destaco o trabalho de cenografia, de Diogo Góis, Jacinto Rodrigues e João Bernardo, com maior foco para a construção da árvore. Um elemento com uma presença e jogabilidade muitíssimo interessantes. Ao mesmo tempo, questiono o porquê de não ser mais prática a montagem da mesma? É intencional a demora na sua construção? Problemas estruturais? Qual o fundamento?
Ao longo da peça, gostei particularmente do trabalho físico dos intérpretes, em que estes “tropeçavam nos mesmos erros”, implementando assim uma perspetiva de ciclo vicioso.
Questiono a pertinência do momento de quebra da 4ª parede e a conversa com o público. Um momento em que os atores, consciencializados do que são e do que fazem, confrontam o público num estado de “pura realidade”, completamente desprotegidos de diretrizes prévias. O que realmente acontece, na minha opinião, é que não aproveitam aquele momento para desenvolver algo, o que leva a uma monotonia desinteressante.
Por fim, pergunto o porquê da existência dos figurantes. Para além de “encherem o palco”, qual a real função neste projeto?
Luís Vaz de Camões, um dos nomes mais célebres da literatura portuguesa, que, através da sua grande obra, “Os Lusíadas”, o seu mérito é reconhecido e recordado até aos dias de hoje, não só em território nacional.
Espetáculo que acompanha as celebrações do seu 500ª aniversário de nascimento, a ATEF - Companhia de Teatro (Teatro Experimental do Funchal) homenageia este grande nome da história de Portugal, através de um texto de um outro nome sonante da literatura portuguesa, José Saramago. A obra “Que farei com este livro?”, conta-nos a história do árduo processo de publicação daquele que viria a ser o “grande símbolo” da literatura portuguesa. O desinteresse da coroa, os problemas económicos de Camões e a censura pela Santa Inquisição, são alguns dos fatores apresentados.
Como referido anteriormente, o texto base é de autoria de José Saramago, mas este passou pela adaptação e encenação de António Plácido.
Um espetáculo que se sustenta pelas componentes textual e histórica - pessoalmente, não é o meu estilo de texto favorito, contudo, reconheço o seu mérito, principalmente pela opção de partilha da história desta grande figura nacional e do seu contexto histórico.
No seu todo, achei a peça interessante, no entanto, chamaria a atenção na imposição das músicas de transição ainda nas falas dos intérpretes, o que levava à não compreensão do que estava a ser dito.
Destaco um “elemento de marca” da ATEF, peculiar no contexto global, que são os elencos compostos. Neste exemplo, contaram com quinze elementos, entre intérpretes e figurantes. Algo raro de se encontrar em outras produções por aí.