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Diário de um Espetador

Um espaço dedicado ao comentário dos mais diversos espetáculos e eventos culturais, com destaque para as apresentações teatrais.

Diário de um Espetador

Um espaço dedicado ao comentário dos mais diversos espetáculos e eventos culturais, com destaque para as apresentações teatrais.

“«Frágua de Amor», de Gil Vicente”, por A Escola da Noite e O Bando de Surunyo.

Em celebração dos 500 anos deste texto vicentino, a A Escola da Noite une-se ao O Bando de Surunyo para reviver esta peça que celebra o amor e a mudança. Uma encomenda em honra da união de D. João III, de Portugal, com D. Catarina, irmã de Carlos V, de Espanha.

Cupido foge do leito de sua mãe, Vénus, para ajudar D. João III a conquistar a sua amada. Este inventou uma tal forja ("frágua"), que prepara os portugueses para os novos tempos. Quem por lá for forjado, transformar-se-á em algo melhor! Todos queriam ser forjados, desde os mais desprezados, até aos de maior estatuto social. Nem a justiça escapou deste processo… Uma amostra de que com AMOR, tudo se transforma.

O projeto teve como responsável pela encenação, António Augusto Barros e pela direção musical, Hugo Sanches.

Não é a primeira vez que assisto a uma produção vicentina da A Escola da Noite, com direção de António Augusto Barros, e, novamente, não voltou a desiludir. Um espetáculo muito bem conseguido! Começando pelo jogo cénico, desde o trabalho com as profundidades do palco, a utilização de maquinaria de cena e a movimentação dinâmica dos elementos de cena, o trabalho cenográfico de João Mendes Ribeiro e Luisa Bebiano, a celestial componente musical que acompanhou toda a peça e as interessantes interpretação, com destaque para o jogos corporais.

Um junção de momentos cómicos, reflexivos e de deleite auditivo e visual para o espetador.

“Quis Saber Quem Sou - Um concerto teatral”, por Pedro Penim.

Produção do Teatro Nacional D. Maria II, “Quis Saber Quem Sou”, não é um espetáculo de teatro musical, mas sim, ao que posso designar de, um “concerto que incorpora momentos teatralizados”.

Este, foi um projeto que integrou as Comemorações dos 50 anos da Revolução do 25 de abril. O espetáculo conta com a recolha de canções, cantigas e palavras de ordem que remontam a essa época, essa mentalidade, essa energia! Na voz de jovens intérpretes, é apregoada a palavra intemporal, “LIBERDADE”!

Este espetáculo contou com a conceção textual e encenação de Pedro Penim.

A apresentação culminou em algo que acho incrível, que é a união de todo um público, de idades diversas, nas canções que marcaram um povo. Gostei bastante da lista musical, sob direção de Filipe Sambado, como também das interpretações das mesmas canções. Trabalho de direção vocal de João Neves. Cantares celestiais.

Inicialmente, admito que não estava muito engajado naquilo que me estavam a querer transmitir. Numa fase posterior, comecei a ser agarrado, até que acabei a deliciar-me a cantar “Somos Livres” de Ermelinda Duarte.

Destaco a idealização cenográfica de Joana Sousa. A incorporação de espelhos para aumentar a massa humana, acredito ser um pormenor muito interessante.

Reconheço o trabalho fantástico do texto coral e compreendo o seu significado, mas, confesso que fiquei maçado dessa escuta monocórdica constante. Outro ponto que me pôs a questionar, foi o frequente apontar de dedos para o público e a inquietude dos intérpretes. Pessoalmente, não me senti desafiado a refletir sobre as questões apresentadas, mas sim, pensar: “mas quem és tu para me apontares o dedo dessa maneira?”.

“«Esperando Godot», de Samuel Beckett”, por Teatro Oficina Uzyna Uzona (BR).

Nada mais, nada menos, do que uma das companhia mais antiga, ainda em funcionamento, no Brasil. Nada mais, nada menos, do que um dos textos mais aclamados da literatura teatral. Bem… a meu pensar, esta combinação só poderá originar algo de bom. Não?

Este espetáculo foi o último a integrar a bienal ‘Todos São Palco’, com produção do Teatrão, coprodução com várias outras entidades culturais da zona centro e norte do país e a curadoria de Jorge Louraço Figueira.

“À Espera de Godot”, (tradução pt-pt) é um texto que nos faz questionar sobre o porquê da nossa existência. O porquê da existência do VAZIO. Como é que lidamos com o espaço-tempo? E a memória, onde se encaixa nesta história? Por outras palavras, um avultado número de perguntas, que na sua maioria, não espera por uma resposta. Existem apenas por existir. Fora do comum, não?

A peça teve como responsável pela encenação, Zé Celso - simplesmente, um dos maiores nomes do teatro brasileiro, que, infelizmente, faleceu no ano passado. Por esse motivo, Marcelo Drummond ficou como novo responsável pelo projeto. A tradução do texto esteve a cabo de Zé Celso, Catherine Hirsch e Verônica Tamaoki.

É de destacar que este trabalho marca o retorno do ator Alexandre Borges ao Teatro Oficina, após quase trinta anos.

Respondendo à pergunta que fiz logo no início, a resposta é: SIM! O trabalho estava muito bom! Apesar de não ser dos maiores fãs deste género de teatro, reconheço o alto nível de trabalho de construção de personagens. As suas corporalidades e vocalidades, simplesmente, fantásticas. Os intérpretes em questão, são: Marcelo Drummond, Alexandre Borges, Ricardo Bittencourt, Roderick Himeros e Tony Reis. Foram três horas em que estive completamente vidrado naquilo que estava a ser apresentado.

O que mais me causou estranheza, foi a presença constante do técnico de câmara do vídeo em direto em cena. Com isto, não quero dizer que a sua presença era injustificada, pelo contrário! No espaço que foi apresentado (Convento de São Francisco, Coimbra), ajudava a criar uma maior proximidade entre o público e a ação. Apenas, comento este sentimento da existência de “algo a mais” em cena... a acompanhar os personagens. A verdade é que até ao momento em que escrevo, procuro maneira de descodificar esta sensação. Pelos vistos, terei de continuar a pensar sobre o assunto.

O Teatro Oficina, desde o primeiro momento, propõe a ideia de destruição tanto do mundo fictício do texto, como o do real. É impressionante, como saí da obra com esse peso amarrado aos ombros.

Em memória, deixo uma fotografia tirada após os agradecimentos, com o cenário e a imagem em homenagem ao Zé Celso.

 

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