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Diário de um Espetador

Um espaço dedicado ao comentário dos mais diversos espetáculos e eventos culturais, com destaque para as apresentações teatrais.

Diário de um Espetador

Um espaço dedicado ao comentário dos mais diversos espetáculos e eventos culturais, com destaque para as apresentações teatrais.

“Hamlet 16x8”, por Marco Antonio Rodrigues (BR).

“Hamlet”, um dos textos mais aclamados da literatura teatral, escrita pelo aclamado, William Shakespeare. “Augusto Boal”, o maior nome do teatro brasileiro e um dos maiores do século XX. O que ambos têm em comum? A dúvida: “ser, ou não ser, eis a questão…”.

A partir de excertos do livro, “Hamlet e o Filho do Padeiro: Memórias Imaginadas”, escrito pelo próprio Boal, numa recolha das suas memórias e experiências ao longo da sua carreira, Marco Antonio Rodrigues e Rogério Bandeira, criam uma narrativa onde interpretam essas mesmas memórias e expõem a evolução do teatro brasileiro, do Teatro Arena e do próprio Boal.

Este espetáculo integra a bienal ‘Todos São Palco’, com produção do Teatrão, coprodução com várias outras entidades culturais da zona centro e norte do país e a curadoria de Jorge Louraço Figueira.

Este trabalho teve como responsáveis pela dramaturgia, Marco Antonio Rodrigues e Rogério Bandeira. A encenação ficou ao comando do Marco Antonio Rodrigues e a interpretação pelo Rogério Bandeira.

Não é a primeira vez que assisto ao trabalho do Marco e, novamente, não voltou a desiludir. Espetáculo fantástico! Grande destaque para o trabalho interpretativo e de construção das diferentes personagens apresentadas. Uma verdadeira aula de história dinâmica. Um trabalho de cenário e de luz, mais simples, mas com o alto desempenho no trabalho de ator. Confronto direto e intimista como o público, como se estivéssemos a assistir tão perto do intérprete, que quase sentíamos o seu odor corporal. Achei muito interessante o momento em que o Rogério recria o espaço de apresentação do Teatro Arena - ou pelo menos, o espaço de representação.

Quero realçar o tremendo trabalho interpretativo de Rogério Bandeira - em tom de brincadeira, “duas horas de peça com pilhas Duracell”.

Quanto ao “16x8”... nos ecrãs dos telemóveis, pudemos encontrar as respostas que respondem a este dilema.

“«Às sete da tarde quando morrem as mães», de AveLina Pérez”, pela Cooperativa Bonifrates.

Já fazem alguns meses desde que me despedi da Galiza e da sua gente. As saudades já começam a apertar. Para apaziguar este sentimento, tive o privilégio de poder assistir à obra conceituada da dramaturga, também conceituada, AveLina Pérez.

No tempo em que vivi naquelas terras, esta peça era muito mencionada, comentada e relembrada, contudo, por um nome diferente: “Às oito da tarde cando morrem as nais” - pronto, não é assim tão diferente... é apenas a hora…, mas já é uma diferença!

Logo no primeiro contacto com o título, associamo-la a temas densos, pesados, no entanto, a verdadeira premissa desta obra, é a libertação e a escuta das necessidades do público para com as obras que assiste e os artistas.

O que fazem ali? Porque foram até lá? Necessitam de algo? O que é que necessitam? Cederam de algo para estarem naquelas cadeiras? As mães? Ficaram com quem? São estas e inúmeras outras perguntas que se desenvolvem ao longo do espetáculo.

Como referi anteriormente, esta obra é de autoria da dramaturga AveLina Pérez, que teve como responsável pela tradução e encenação, Sofia Lobo.

Admito que saí bastante satisfeito com o que foi apresentado. O texto é fantástico, a interpretação surpreendeu-me, além da quantidade de pessoas presentes em palco (por volta de 13 elementos - algo bastante anormal nos tempos que correm), que culminaram numa sessão que fez rir, pensar, confundir e voltar a pensar. Por outras palavras, algo bastante prazeroso.

Quero destacar a energia levada a cabo pelos intérpretes. Apesar de constituir um elenco na sua maioria, se não total, de “amantes de Teatro”, a forma como que foi apresentando, o amor expelido por aqueles corpos para com que a máquina andasse, foi algo muito surpreendente.

Outro pormenor, não sei se premeditado, ou então por consequência do grupo existente, a representação do PÚBLICO com intérpretes não inferiores a 40 anos e as ATRIZES entre os 18 e os 25 anos, que criou uma linguagem, a meu ver, bastante interessante.

“«A Noite Canta os Seus Cantos», de Jon Fosse”, por Baal17.

A simplicidade de um jovem casal que vive a recente experiência de serem pais. Um escritor sem editora, uma nora que não é bem apreciada pelos sogros, solidão, uma saída à noite, um mistério, uma dúvida. A insistência é constante. Até que ponto os jogos psicológicos são legítimos para se conseguir a tão desejada PAZ / ESTABILIDADE / TRANQUILIDADE? Se algo não correr como esperado, deve existir a culpa?

Estas são algumas ideias que acredito estrem presentes no texto de Jon Fosse, dramaturgo norueguês, Nobel da Literatura de 2023, ‘A Noite Canta os Seus Cantos’, que é posto em cena pela Baal17. Para tal, contou com a tradução de Pedro Fernandes e Manuel Resende e encenação de Luís Varela.

O texto é maravilhoso! Acabei o espetáculo confuso, revoltado e, estranhamente, satisfeito com essa mistura de sensações. Um trabalho que coloca em prova a cabeça do espetador com as suas sucessivas repetições e insistências, fazendo-o questionar o porquê daquilo estar a acontecer. É engraçado que até hoje, continuo com essas perguntas no ar.

“Augúrio”, por TARRAFO - Associação Cultural.

Espetáculo integrante do Festival 'CORRENTES DE UM SÓ RIO', a TARRAFO - Associação Cultural, abre-nos a janela de um estúdio de gravação, onde um grupo de cinco músicos, são desafiados a compor em doze horas, músicas para um novo álbum. “Augúrio” é o título desse álbum.

Será que alguém conseguiria adivinhar que estes mesmos músicos estariam a compor juntos, naquele dia, naquelas horas? Seria um presságio? O Destino? Porquê estes e não outros? O que terá de acontecer, acontecerá. Está escrito nas estrelas.

Esta obra contou com a construção textual e dramaturgia de Hélder Wasterlain, encenação de Adérito Araújo e João Fong e direção musical de Luís Pedro Madeira.

Uma leitura do espaço-tempo e da perceção de DESTINO, a meu ver, bastante interessantes. Destaco a deliciosa componente musical. Para quem experienciou, podia fechar os olhos e viajar pelo inconsciente. Uma viagem “sem destino”... ou talvez … "com"...

Afinal, o que iremos fazer ou pensar já está predeterminado? As nossas escolhas/liberdade são ilusórias?

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