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Diário de um Espetador

Um espaço dedicado ao comentário dos mais diversos espetáculos e eventos culturais, com destaque para as apresentações teatrais.

Diário de um Espetador

Um espaço dedicado ao comentário dos mais diversos espetáculos e eventos culturais, com destaque para as apresentações teatrais.

“«A História da Imperatriz Porcina», de Baltazar Dias”, pelas alunas/os do 1º ano da ACE Escola de Artes.

O estudo dos clássicos é algo indispensável para o processo de formação, seja lá qual for a área. No Teatro, compreender como eram escritas e apresentadas as obras, é fundamental para ter uma consciência de como a arte evoluiu ao longo dos séculos, além de passarmos a conhecer os nomes e o trabalho dos grandes precursores teatrais. Um outro ponto é a dificuldade linguística e física que as personagens desses textos exigem. Ótimos exercícios para treinamento de atores/atrizes.

Baltazar Dias, poeta e dramaturgo madeirense – conhecido por ter sido um artista cego – é um dos grandes nomes da literatura dramática regional e nacional. Autor de várias obras – desde caráter religioso a cómico – algumas delas são imortalizadas a nível internacional, como “A Tragédia do Marquês de Mântua”, em São Tomé e Príncipe, ao que originou o conhecido Tchiloli e “A História da Imperatriz Porcina”, no Brasil – obra trabalhada por este grupo.

Sob direção artística de Sara Barros Leitão, o grupo procurou representar o texto original, através de adaptações cénicas contemporâneas. Um trabalho grupal interessante.

Tendo conhecimento do contexto que levou à elaboração do projeto, surgem-me duas reflexões que quero partilhar e, passo a frisar, não têm a ver diretamente com o que foi apresentado. A primeira, é o reforçar da importância de uma adaptação dos textos clássicos para uma linguagem atual – com destaque para a questão linguística. Se o público não compreender o que está a ser dito, cria-se uma grande barreira na transmissão da mensagem da obra, na minha visão, algo fundamental. O segundo ponto foi a consciencialização do número extremamente reduzido de artistas madeirenses – claramente, incluo-me neste ponto – que trabalham a partir de obras clássicas de outras artistas conterrâneos. Grandes textos que caem no esquecimento e que muitas vezes são os de foram que os revivem.

Atenção! Este é um problema global, não regional. Genuinamente acredito que é algo que pode ser mudado. É para isso que trabalhamos, não é verdade?

“XVIIº Mercado Quinhentista de Machico”, na Madeira, Portugal.

Não é a primeira e tão pouco será a última vez que virei ao Mercado Quinhentista de Machico. Uma feira medieval que tem data obrigatória nos calendários dos madeirenses (nem falo dos machiqueiros, porque para esses, deviam ser três dias de feriado regional).

Um evento que recorda e recria a época da descoberta da ilha da Madeira. Para quem não sabe, as ilhas da Madeira e do Porto Santo, segundo informação histórica, foram divididas por três homens: Bartolomeu Perestrelo, que fico com a governação do Porto Santo, Tristão Vaz Teixeira e João Gonçalves Zarco que dividiram a Madeira em duas partes, ficando um com uma área que englobava o Funchal (João Gonçalves Zarco) e outro com Machico (Tristão Vaz Teixeira). Neste Mercado, Tristão Vaz Teixeira é o grande governador.

Animação é garantida, com muita música, danças, recriações, acrobacias, histórias e muito mais, além de inúmeras barracas de comida e bebida para não dar as fraquezas a ninguém.

Tenho muito carinho por este evento. Em edições anteriores já participei como elemento da animação, hoje, foi como espetador e quero mencionar o meu agrado ao ver que ano após ano, o número de pessoas a visitar o Mercado aumenta. Espero que o número de visitas continue a aumentar e que a própria feira aumente de dimensões e conteúdo, mas sem perder a sua componente comunitária tão importante.

“Magma”, pelas Compañías Nómada e Lasafueras (ES).

Um material viscoso, de fácil penetrabilidade e com um alto poder de modificar o meio por onde passa. Isto, é o Magma, uma força da Natureza. Num espetáculo que vai de “barranco abaixo”, os seus criadores prometem, com a linguagem da dança contemporânea, apresentar a energia de uma erupção vulcânica.

Esta obra foi coreografada e interpretada por Andrea Catania e Roberto Torres, tendo como diretor, Alex Catona.

Quanto ao nível de imagem, confesso que fiquei deslumbrado. Trabalho de iluminação e de manipulação dos corpos, simplesmente, divinais. O trabalho de movimentação fluida e de alta carga energética (sem exageros) levava o espetador a viajar num mundo claustrofóbico, sufocante e desesperador. Destaco os efeitos utilizados, como a amplificação do espaço de cena com o eco vocal e as imagens e sonoridade da coreografia com a corrente de ferro.

Termino esta jornada de espetáculos pela Galiza de uma forma fantástica.

“Soñar al borde del precipicio”, por Julio Fernández (ES).

Um compilado de pensamentos, desejos e sonhos, é assim que caraterizo a peça “Soñar al borde del precipício”, de Julio Fernández. Numa construção textual bastante crítica do mundo em que está inserido, debate sobre temas que não só o colocam na borda de um precipício, como também a quem o escuta.

Esta obra foi escrita, encenada e interpretada pelo próprio.

Quanto aos textos, gostei do método narrativo que utilizou para construí-los, já a apresentação, confesso que fiquei desiludido. A nível de cenário existiam elementos que tenho as minhas dúvidas quanto à pertinência da utilização dos mesmos e a interpretação achei muito franco. Falta de tonalidade vocal e de presença levaram a uma desconexão constante daquilo que estava a ser apresentado, algo grave, a meu ver, tendo em conta que se tratava de um espetáculo que acentuava a escuta das palavras.

Destaco um gesto que me deixou reflexivo. Ao comprar o bilhete do espetáculo, era oferecido um exemplar do livro que descrevia por completo a peça que iríamos assistir. Por um lado, gostei da ideia, pois, para além de ser um item de recordação, permite que o espetador possa rever textos que gostou bastante ou não compreendeu, ao seu ritmo pessoal. Por outro lado, questiono-me: afinal, vim assistir a uma encenação, ou a um lançamento do livro?

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