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Diário de um Espetador

Um espaço dedicado ao comentário dos mais diversos espetáculos e eventos culturais, com destaque para as apresentações teatrais.

Diário de um Espetador

Um espaço dedicado ao comentário dos mais diversos espetáculos e eventos culturais, com destaque para as apresentações teatrais.

“Millo Vello”, por Ay, Cariño! (ES).

Mais uma experiência em espetáculos experimentais. Desta vez, na mais recente produção da companhia, Ay, Cariño!. Um espetáculo performativo, com música ao vivo, que realça o trabalho de exploração de corpos e objetos, rematando num ambiente sonoro e visual arrepiante. “Millo Vello”, o traspassar dos campos agrícola, do trabalho manual e do contacto com a Natureza, para o palco.

Uma criação coletiva de Cris Vilariño, Diego M. Buceta, Rafa Mallo e Robert Tena, num projeto de exploração extremamente interessante das interpretações e possibilidades corporais, mais as composições sonoras que surgiam a partir desses mesmos movimentos.

Sublinho o trabalho rítmico destes intérpretes e da demonstração de que não é necessário estar constantemente em picos e energia e movimentação para captar a atenção permanente do público.

“NEURA, unha comedia neurótico-festiva”, por De Ste Xeito (ES).

Com a evolução dos tempos e das sociedades, foram alcançados certos direitos e permitidos outros acessos que, hoje, podemos usufruí-los livremente. Destaco a terapia. Tema cada vez mais discutido no meio social.

A companhia De Ste Xeito, cria uma comédia, sob responsabilidade dramatúrgica e de encenação de Manuel Pombal, abordando a mentalidade circundante da terapia, com o lema e passo a citar “A mellor terapia: rirnos de nòs mesm@s!".

Construída com base narrativa no reencontro de um casal, com personalidades e caraterísticas peculiares, totalmente opostas, enfocada na ideia da desmistificação do tema e dos seus preconceitos agregados. Por outro lado, critica métodos com menor ou nenhuma comprovação científica da sua eficácia, que aproveitam as fragilidades das pessoas para lucrarem em cima disso.

Quanto a nível de espetáculo, destaco o trabalho dos intérpretes nas suas distintas construções de personagens, mais a idealização e construção do cenário. De resto, uma típica comédia que seguiu a sua formatação base. Nada que me surpreendesse ou motivasse.

Reflexiono quanto ao passar da mensagem ao público. Se a intenção da companhia era promover e informar os processos de terapia, acredito que o distanciamento criado com a caraterização de personagens tão estereotipadas, faz com que o público crie uma barreira entre o real e o ficcionado, ou seja, não se sente identificado com a história. O público passa a acreditar que quem realmente necessita desses apoios, são pessoas com aquelas certas características levadas ao extremo.

“Non é unha Canción”, por Souvenir (ES).

O que pode dar a combinação entre turismo de massas e a inteligência artificial? (A resposta é mais simples do que parece) O espetáculo “Non é unha canción”, dos Souvenir.

Como o próprio nome indica, este espetáculo não é uma canção, mas é algo parecido. Não é uma coreografia, mas é algo parecido. Também não é a apresentação de uma história, mas... é algo parecido.

Não é tudo e também não é nada, mas é algo parecido. Este espetáculo teve como responsáveis David Alonso e María de las Llanderas, pela dramaturgia, encenação e interpretação.

Uma produção que me satisfez bastante. Um espetáculo pós-dramático que apresenta vários elementos associativos dos dois tópicos principais (turismo de massas e inteligência artificial). Uma mistura de várias cenas repletas de estímulos diversos e, a meu ver, muito interessantes. Destaco o trabalho de manipulação dos equipamentos tecnológicos, os jogos textuais e de ações entre intérprete-intérprete e intérpretes-público e o trabalho de imagem do espetáculo.

Outro ponto que, pessoalmente, achei interessante, foi a citação da ilha da Madeira, como "Paraíso Turístico". Fico a pensar se é por bons ou maus motivos…

“Festa da Reconquista da Vila de Vigo 2024”, em Galiza, Espanha.

Infelizmente, já escrevo este comentário com uma semana de atraso. Muito mal não fará, porque a própria Festa da Reconquista da Vila de Vigo, igualmente, celebrou-se com uma semana de atraso em relação à sua data original.

Sobreposta às celebrações da Semana Santa, os habitantes de Vigo tiveram de escolher entre cancelar esta celebração, ou apontar para outras datas. Espanhol que é espanhol gosta de uma boa festa, então optaram por a realizar na semana seguinte à Páscoa.

Em memória da expulsão dos invasores franceses, a mando de Napoleão, pelo povo de Vigo, esta festa é uma das mais importantes do calendário da cidade e declarada como de interesse turístico nacional.

Numa tentativa de recriar os inícios do séc. XIX, a zona histórica da cidade transforma-se completamente. Repleta de tendas de alimentação, artesanato, instrumentos musicais, etc., une-se a boa animação com música, teatro e dança.

Esta iniciativa foi possível graças ao Concello de Vigo e a Asociación Veciñal Casco Vello.

O que mais me surpreendeu foi a envolvência dos visitantes com o evento. As raízes tradicionais galegas estavam bem presentes e, a meu ver, bem representadas, tanto pelas gerações mais antigas, como pelas mais novas. Certamente, um evento a voltar.

 

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