A palavra “Sobre”, no seu significado comum, representa a exploração/investigação/identificação de algo. Esse “algo”, pode ser “qualquer coisa”. A "definição" torna-se "indefinida".
Este espetáculo performático, idealizado por Pedro Fresneda e criado pelo próprio Pedro Fresneda, Raquel Hernandéz e Artús Rei, mais a colaboração de Juan Navarro e Terrorismo de Autor, apresenta a desconstrução do mundo em que vivemos, ou pelo menos, de como o idealizamos. A exploração do sentido das conexões humanas e a perceção sensorial do que nos rodeia, são temas pilares desta produção.
Um trabalho bastante diferente daquele que estou acostumado a assistir, que confesso ter me agradado. As imagens corporais criadas pelos intérpretes, mais a exposição de novas formas de utilização da maquinaria eletrónica de cena, são dois aspetos que, pessoalmente, mais me cativaram. Destaco a disrupção, desde o início, do modelo de apresentação teatral definido socialmente.
Desde o comentário passado do obradoiro “Plumas e Alcatrán”, também de alunos do 4º ano da ESAD Galicia, foi me explicado que existem dois tipos de espetáculos, sendo estes na vertente textual (o caso do “Plumas e Alcatrán”) e na vertente gestual (o caso do “Recordari”).
Como referido no comentário anterior, o “obradoiro” (oficina de criação), consiste em que os alunos do 4º ano, dos quatro cursos existentes na ESAD Galicia (cenografia, dramaturgia, encenação e interpretação), criem e executem um projeto teatral.
“Recordari”, apresenta-nos o universo imaginário de uma Velha, que, no seu fim de vida, tem um último reencontro com as suas versões passadas (Jovem e Adulta). Uma viagem pela Memória, que revive certos traumas e superações. O projeto está apoiado no trabalho de Máscara.
Esta produção teve como linha de pensamento o texto “Horizontal en bianco” de Ezequiel Rodriguez. A encenação esteve ao comando de Susana Villaverde e Sara Faro e a cenografia por Amelia Poyato e Maite Dubois.
Um espetáculo que me agradou bastante. Destaco a ótima prestação das atrizes com o trabalho de Máscara e o fantástico trabalho dos cenógrafos (tanto na elaboração do cenário, como nas máscaras). Existiram alguns momentos que ainda tenho dúvidas dos seus significados e das suas coerências, no entanto, tenho em conta que em muito pouco influenciaram na minha perceção da obra.
Homenageando seis artistas galegas (Bella Otero (cantora e bailarina), Maruja Mallo (pintora), Mercedes Mariño (atriz), Maruxa Villanueva (atriz), Eugenia Osterberger (compositora), María A Balteira (trovadora) e Tania Villamarín (atriz)), a companhia Maquinarias Teatro criou este espetáculo com a intenção de demonstrar, utilizando as histórias destas mulheres como exemplo, de como a Arte é um elemento crucial para o desenvolvimento pessoal e social. Ao mesmo tempo, expuseram o contexto precário em que se encontra o sistema artístico. Como dito pela própria companhia e passo a citar, “Uma comédia sobre como ser artista… e mulher.”.
Esta produção teve como responsável pela encenação, Paula Carballeira.
Destaco o meu agrado pelo tema abordado. A ideia de como estas mulheres, utilizando a Arte, conseguiram se destacar nas suas épocas, sendo recordadas até os dias de hoje. Quanto à proposta cénica, considero que ideia é interessante, contudo, fica aquém do espectável. Julgo que a questão rítmica do espetáculo poderia ser reavaliada. A criação de pausas forçadas na interpretação e interações, também forçadas, com o público, causavam desconforto e desconcentração daquilo que estava a ser apresentado em palco.
Manuela Rey, uma galega da zona norte, mais precisamente de Mondoñedo, que por reviravoltas da vida, acaba por emigrar para Portugal. Aí, torna-se atriz e com 15 anos estreia-se no palco do Teatro Nacional D. Maria II, vindo a pertencer à companhia residente do mesmo. Para além da sua função como atriz, Manuela também escrevia textos dramáticos. Infelizmente, a sua carreira artística foi interrompida pelo seu falecimento, aos 23 anos.
Segundo os próprios criadores, esta produção tem como intensão e passo a citar, “Uma espécie de regresso triunfal de Manuela Rey aos palcos”.
Para além do Teatro do Noroeste / Centro Dramático de Viana, a criação deste espetáculo contou com a coprodução do Centro Dramático Galego, do Teatro Nacional São João e o Teatro Nacional D. Maria II. A responsabilidade pela dramaturgia e encenação, ficou a cabo de Fran Núñez, diretor do CDG.
Tive o privilégio de poder assistir esta peça na cidade de Santiago de Compostela, na Galiza, Espanha.
Um trabalho do qual gostei muito. Destaco a composição musical fantástica, que teve como responsável Xosé Lois Romero, a construção das movimentações de cena, tanto dos intérpretes, como das possibilidades de montagem e desmontagem do cenário e a representação nas duas línguas (português e galego). Um estudo antropológico que foi transformado num espetáculo impactante (sublinho a componente visual).
Considero que poderia melhorar na questão do volume dos efeitos sonoros. Recordo-me de dois momentos em que o som produzido era superior à voz dos intérpretes, ao que levava à não compreensão daquilo que era dito.
Pessoalmente, estranhei a opção dos intérpretes de criarem “bonecos” para contar a história. Passo a explicar, tecnicamente eram bons, tanto vocal, como corporalmente, contudo, senti falta de uma naturalidade na interpretação.
Acentuo e louvo esta iniciativa de coprodução entre Portugal e Galiza. As semelhanças culturais entre ambas as regiões são muito fortes e considero que, tal como este projeto, deveriam de existir mais atividades de parceria.
Num dos momentos mais importantes para a comunidade escolar da ESAD Galicia, o “obradoiro” (oficina de criação), consiste em que os alunos do 4º ano, dos quatro cursos existentes da instituição (cenografia, dramaturgia, encenação e interpretação), criem e executem um projeto teatral.
“Plumas e Alcatrán”, apresenta relatos de mulheres galegas que foram torturadas pelo regime franquista. Além do mais, a peça critica a posição dos governantes estatais que mantêm estas informações ocultadas à população.
Uma homenagem as Mulheres que, em tempos, foram torturadas por marcharem contra os pensamentos do regime.
A dramaturgia esteve a cabo de Alba Villar e a encenação por Laura Barral e Rocio Garcia. A coordenação pedagógica foi dirigida por Vanesa Sotelo, Ana Arteaga, David Mortol e María Francelina.
Uma produção que, no seu conjunto, estimei. Um texto potente, não só pela componente descritiva, mas também pela mensagem política que carrega. Já a nível cénico, gostei de como o espaço foi construído e da proposta de jogo que os elementos escolhidos proporcionaram, como por exemplo, a composição do cenário, os efeitos sonoros criados em cena, a composição da projeção de vídeo e as diferentes posições de ação. No entanto, considero que necessitariam de mais algum tempo de ensaios, principalmente para a retificação dos momentos corais e o aprofundamento da “verdade emocional” das personagens.