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Diário de um Espetador

Um espaço dedicado ao comentário dos mais diversos espetáculos e eventos culturais, com destaque para as apresentações teatrais.

Diário de um Espetador

Um espaço dedicado ao comentário dos mais diversos espetáculos e eventos culturais, com destaque para as apresentações teatrais.

“Sobre”, por Pedro Fresneda (ES).

A palavra “Sobre”, no seu significado comum, representa a exploração/investigação/identificação de algo. Esse “algo”, pode ser “qualquer coisa”. A "definição" torna-se "indefinida".

Este espetáculo performático, idealizado por Pedro Fresneda e criado pelo próprio Pedro Fresneda, Raquel Hernandéz e Artús Rei, mais a colaboração de Juan Navarro e Terrorismo de Autor, apresenta a desconstrução do mundo em que vivemos, ou pelo menos, de como o idealizamos. A exploração do sentido das conexões humanas e a perceção sensorial do que nos rodeia, são temas pilares desta produção.

Um trabalho bastante diferente daquele que estou acostumado a assistir, que confesso ter me agradado. As imagens corporais criadas pelos intérpretes, mais a exposição de novas formas de utilização da maquinaria eletrónica de cena, são dois aspetos que, pessoalmente, mais me cativaram. Destaco a disrupção, desde o início, do modelo de apresentação teatral definido socialmente.

“Recordari”, pelas alunas do 4º ano da ESAD Galicia (ES).

Desde o comentário passado do obradoiro “Plumas e Alcatrán”, também de alunos do 4º ano da ESAD Galicia, foi me explicado que existem dois tipos de espetáculos, sendo estes na vertente textual (o caso do “Plumas e Alcatrán”) e na vertente gestual (o caso do “Recordari”).

Como referido no comentário anterior, o “obradoiro” (oficina de criação), consiste em que os alunos do 4º ano, dos quatro cursos existentes na ESAD Galicia (cenografia, dramaturgia, encenação e interpretação), criem e executem um projeto teatral.

“Recordari”, apresenta-nos o universo imaginário de uma Velha, que, no seu fim de vida, tem um último reencontro com as suas versões passadas (Jovem e Adulta). Uma viagem pela Memória, que revive certos traumas e superações. O projeto está apoiado no trabalho de Máscara.

Esta produção teve como linha de pensamento o texto “Horizontal en bianco” de Ezequiel Rodriguez. A encenação esteve ao comando de Susana Villaverde e Sara Faro e a cenografia por Amelia Poyato e Maite Dubois.

Um espetáculo que me agradou bastante. Destaco a ótima prestação das atrizes com o trabalho de Máscara e o fantástico trabalho dos cenógrafos (tanto na elaboração do cenário, como nas máscaras). Existiram alguns momentos que ainda tenho dúvidas dos seus significados e das suas coerências, no entanto, tenho em conta que em muito pouco influenciaram na minha perceção da obra.

“Que din as rumorosas”, por Maquinarias Teatro (ES).

Homenageando seis artistas galegas (Bella Otero (cantora e bailarina), Maruja Mallo (pintora), Mercedes Mariño (atriz), Maruxa Villanueva (atriz), Eugenia Osterberger (compositora), María A Balteira (trovadora) e Tania Villamarín (atriz)), a companhia Maquinarias Teatro criou este espetáculo com a intenção de demonstrar, utilizando as histórias destas mulheres como exemplo, de como a Arte é um elemento crucial para o desenvolvimento pessoal e social. Ao mesmo tempo, expuseram o contexto precário em que se encontra o sistema artístico. Como dito pela própria companhia e passo a citar, “Uma comédia sobre como ser artista… e mulher.”.

Esta produção teve como responsável pela encenação, Paula Carballeira.

Destaco o meu agrado pelo tema abordado. A ideia de como estas mulheres, utilizando a Arte, conseguiram se destacar nas suas épocas, sendo recordadas até os dias de hoje. Quanto à proposta cénica, considero que ideia é interessante, contudo, fica aquém do espectável. Julgo que a questão rítmica do espetáculo poderia ser reavaliada. A criação de pausas forçadas na interpretação e interações, também forçadas, com o público, causavam desconforto e desconcentração daquilo que estava a ser apresentado em palco.

“Manuela Rey Is In The House”, por Teatro do Noroeste / Centro Dramático de Viana.

Manuela Rey, uma galega da zona norte, mais precisamente de Mondoñedo, que por reviravoltas da vida, acaba por emigrar para Portugal. Aí, torna-se atriz e com 15 anos estreia-se no palco do Teatro Nacional D. Maria II, vindo a pertencer à companhia residente do mesmo. Para além da sua função como atriz, Manuela também escrevia textos dramáticos. Infelizmente, a sua carreira artística foi interrompida pelo seu falecimento, aos 23 anos.

Segundo os próprios criadores, esta produção tem como intensão e passo a citar, “Uma espécie de regresso triunfal de Manuela Rey aos palcos”.

Para além do Teatro do Noroeste / Centro Dramático de Viana, a criação deste espetáculo contou com a coprodução do Centro Dramático Galego, do Teatro Nacional São João e o Teatro Nacional D. Maria II. A responsabilidade pela dramaturgia e encenação, ficou a cabo de Fran Núñez, diretor do CDG.

Tive o privilégio de poder assistir esta peça na cidade de Santiago de Compostela, na Galiza, Espanha.

Um trabalho do qual gostei muito. Destaco a composição musical fantástica, que teve como responsável Xosé Lois Romero, a construção das movimentações de cena, tanto dos intérpretes, como das possibilidades de montagem e desmontagem do cenário e a representação nas duas línguas (português e galego). Um estudo antropológico que foi transformado num espetáculo impactante (sublinho a componente visual).

Considero que poderia melhorar na questão do volume dos efeitos sonoros. Recordo-me de dois momentos em que o som produzido era superior à voz dos intérpretes, ao que levava à não compreensão daquilo que era dito.

Pessoalmente, estranhei a opção dos intérpretes de criarem “bonecos” para contar a história. Passo a explicar, tecnicamente eram bons, tanto vocal, como corporalmente, contudo, senti falta de uma naturalidade na interpretação.

Acentuo e louvo esta iniciativa de coprodução entre Portugal e Galiza. As semelhanças culturais entre ambas as regiões são muito fortes e considero que, tal como este projeto, deveriam de existir mais atividades de parceria.

“Plumas e Alcatrán”, pelos alunos do 4º ano da ESAD Galicia (ES).

Num dos momentos mais importantes para a comunidade escolar da ESAD Galicia, o “obradoiro” (oficina de criação), consiste em que os alunos do 4º ano, dos quatro cursos existentes da instituição (cenografia, dramaturgia, encenação e interpretação), criem e executem um projeto teatral.

“Plumas e Alcatrán”, apresenta relatos de mulheres galegas que foram torturadas pelo regime franquista. Além do mais, a peça critica a posição dos governantes estatais que mantêm estas informações ocultadas à população.

Uma homenagem as Mulheres que, em tempos, foram torturadas por marcharem contra os pensamentos do regime.

A dramaturgia esteve a cabo de Alba Villar e a encenação por Laura Barral e Rocio Garcia. A coordenação pedagógica foi dirigida por Vanesa Sotelo, Ana Arteaga, David Mortol e María Francelina.

Uma produção que, no seu conjunto, estimei. Um texto potente, não só pela componente descritiva, mas também pela mensagem política que carrega. Já a nível cénico, gostei de como o espaço foi construído e da proposta de jogo que os elementos escolhidos proporcionaram, como por exemplo, a composição do cenário, os efeitos sonoros criados em cena, a composição da projeção de vídeo e as diferentes posições de ação. No entanto, considero que necessitariam de mais algum tempo de ensaios, principalmente para a retificação dos momentos corais e o aprofundamento da “verdade emocional” das personagens.

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