Na sua primeira edição, o evento Equality Days, impulsionado pelo projeto EQUAL.STEAM, da Universidade de Coimbra, tem como finalidade sensibilizar a academia e a comunidade circundante, nos temas de integração de raparigas e mulheres nas áreas STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Arte e Matemática) e de desconstruir os estereótipos de género. O programa do evento é composto por diversas performances artísticas para todos os gostos.
Desafiada a construir uma peça a partir desta última temática, a Marionet, habituada a cruzar a arte performativa com a ciência, apresenta-nos um projeto, composto por uma equipa com elementos de diversas áreas do conhecimento, não ligadas diretamente ao Teatro, que se reúnem para discutir e refletir os problemas equalitários existentes nas diversas áreas profissionais. O encenador deste projeto é Mário Montenegro.
Um trabalho muito interessante, de caráter simples, contudo, bastante eficaz, que faz do palco um local de exposição de factos. Apresentam simulações de pequenos momentos tão integrados no nosso dia a dia, que o problema nos passam completamente ao lado. Confesso que um dos aspetos que mais me agradou nesta apresentação, foi observar a dedicação e emoção que cada um dos intérpretes expôs em cena. Um momento de partilha e libertação delicioso.
Numa organização conjunta do Teatro Académico Gil Vicente (TAGV) e os grupos CITAC, GEFAC, TEUC e Thaísos, surge o projeto "Mostra de Teatro Universitária (MTU)", com o objetivo de possibilitar a partilhar do trabalho anual desenvolvido por grupos de teatro académico. A meu ver, uma presença importante, não só na programação deste espaço cultural, como também na programação cultural de Coimbra, pela variedade de peças que apresenta, além da oportunidade que proporciona a novos grupos de poderem tornar público os seus trabalhos e ideias.
Já acostumados à dramaturgia clássica, a Associação Cultural Thíasos, dá vida a uma das grandes obras do tragediógrafo grego, Eurípedes. Esta produção conta com dramaturgia e encenação de Arthur Montenegro e tradução de Maria Helena da Rocha Pereira.
Quanto ao espetáculo, gostei da iniciativa de se desafiarem a interpretar um texto destes, contudo, tenho a ideia de que poderiam tê-lo explorado mais aprofundadamente. Certas opções cénicas suscitam-me dúvidas, tanto a nível estético como a dramático, por exemplo, a opção de trocar os estilos musicais ao longo da apresentação, o contexto do “ballet”, o design de luz, entre outros. Gostaria de assistir a uma adaptação dramatúrgica mais curta e direta e uma maior direção de atores.
A falta de comunicação entre as pessoas é um problema que, cada vez mais, com o passar dos tempos e o evoluir da tecnologia, tem se agravado. Em algum momento das nossas vidas já sofremos de tal, ou fomos causadores.
Cristina Solé, a partir deste tema, cria um espetáculo de clown, com direção de Leandre Ribera, na perspetiva de relação marido-mulher, num formato cómico e reflexivo, em parceria com Juan Pablo Luján.
Uma apresentação fantástica, que me arrancou imensas gargalhadas. Cheia de elementos e dinamismos, superou completamente as minhas expectativas, que já eram altas. Assistir a esta performance, num jardim, numa tarde de sol, realmente, calhou muito bem!
Um dos objetivos da Arte, passa por desempenhar um papel ativo na luta contra os problemas da nossa sociedade. Um desse meios de ação, dá-se na exposição de situações mais delicadas como sinal de alerta para os seus perigos.
Inserido no projeto Deep Acts, a ASTA Teatro cria este espetáculo performático, com encenação de Marco Ferreira, com o intuito de explorar a violência e as contradições presentes nas relações humanas, mais especificamente nas relações de género.
Uma peça que nos faz imergir numa realidade sombria. Imagens fortes, ambiente sonoro grotesco, textos que causam arrepios. Tudo estes elementos juntos, criam algo “horrivelmente belo”. Definitivamente, não é um dos meus géneros teatrais favoritos, no entanto, reconheço a qualidade do trabalho e a sua capacidade de transmitir a mensagem pretendida.
Evocando a Guerra Civil de Espanha, José Sanchis Sinisterra, apresenta neste texto, Paulino, antigo artista itinerante de variedades, que se recorda do dia em que viu a sua companheira Carmela ser fuzilada por militares franquistas, num momento de resistência da mesma, após terem, ambos, sido capturados e obrigados a apresentarem-se perante uma plateia composta pelas tropas de Franco e pelos seus prisioneiros. Com a volta de Carmela da “terra dos mortos”, esta surge diante Paulino e, juntos, refazem todos os passos que provieram na morte da artista, relembrando problemas e decisões que os colocaram naquela terrível situação.
A Trincheira Teatro, elaborou este espetáculo com direção de Pedro Lamas e interpretação de Diana Narciso e Hugo Inácio, para além, da tradução e adaptação do texto pelos três artistas.
Um espetáculo de emoções fortes do início ao fim. Opções cénicas, aparentemente, simples, mas bastante eficazes e uma interpretação incrível. Definitivamente, este espetáculo está na lista das produções que voltaria a assistir com o maior gosto.
A aposta da estrutura artística CEM Palcos, no projeto NOVe – NOVos Tempos NOVas Dramaturgias, tem como objetivo promover, em formato de residências artísticas, a colaboração de 9 dramaturgos e 9 performers (teatro, dança ou música), na criação de 9 micro-espetáculos, com a duração de 9 minutos, para 9 pessoas, repetindo-se 9 vezes no mesmo dia. Ufa… isto é que são noves!
Na sua 2º Edição, é nos apresentado o trabalho de Afonso Molinar (dramaturgo) e José Dias (criador e intérprete). Desta criação, surge a ideia de um homem, que se reúne, secretamente, com um grupo de amigos, na tentativa de mudar a rumo da história. Vamos à Revolução, ou não?
Um espetáculo que quebra completamente com a quarta parede, dado a oportunidade dos espetadores, realmente, interagirem na ação. Como num jogo, somos confrontados com a ideia de que cada ação, tem a sua consequência.
Uma ideia de espetáculo muito interessante, que desconstrói a imagem convencional de peças de teatro. Não só pelo tipo de interação, mas também pela experimentação da duração da apresentação.
Há já quase 50 anos que o nosso país voltou a ter a democracia como regime político vigente. Abril, mês da liberdade! No entanto, como tudo nesta vida, com a idade, começam a ser percetíveis os problemas estruturais, revelando as suas fraquezas. Agimos agora, ou de um momento para outro, tudo pode descambar.
Numa iniciativa de celebração dos 50 anos da Revolução dos Cravos, ao mesmo tempo, a partir do pensamento filosófico de Daniel Innerarity, refletir sobre o desempenho das democracias atuais, quatro companhias teatrais (ASTA Teatro (Covilhã), Baal17 (Serpa), d’Orfeu (Águeda) e Teatrão (Coimbra)), uniram-se na criação deste espetáculo, com texto de Tiago Alves Costa e encenação, dramaturgia e cenografia de Gonçalo Guerreiro.
Um espetáculo muito interessante a todos os níveis. Mensagem bem estruturada e esclarecedora, movimentações dinâmicas com o cenário e adereços, constante interação com o público, imagens fortes, composição musical marcante, entre muitas outras caraterísticas. É mais um daqueles espetáculos que, existindo oportunidade, repetiria a experiência mais do que uma vez, sem sombra de dúvida.
Como era viver na época medieval? Acredito que todos nós, em algum momento das nossas vidas, fizemo-nos esta pergunta. Felizmente, para os mais curiosos, essa possibilidade é real! As feiras medievais e recriações históricas, possibilitam-nos ter um “cheirinho” dessa experiência.
Já na sua 5ª edição, o Mercado Medieval Pedro e Inês de Castro, decorre entre os dias 29, 30 de abril e 1 de maio, no Largo do Terreiro da Fonte, em Eiras, Coimbra, convidado todos os entusiastas a imergirem nesta viagem temporal, acompanhada de comes e bebes e animação diversa.
Gostei muito de ver a forte participação da comunidade local no evento. Acredito que é uma ótima iniciativa, tendo grandes possibilidades de crescimento. Contudo, considero que deveriam ter mais atenção nos figurinos que os participantes da feira usam, pois, a discrepância de épocas, cria um estranhamento.
1972. Nesse ano, em Portugal, os dias ainda eram controlados pelo Estado Novo (mal se sabia que esses tempos estavam a chegar ao seu término). Na mesma época, é publicado o livro «Novas Cartas Portuguesas» por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. “As Três Marias”, como ficaram conhecidas, têm como inspiração o romance epistolar, «Cartas Portuguesas», publicado no séc. XVII, posteriormente, atribuído à freira Sóror Mariana Alcoforado. Incorporando vários tipos de fragmentos, como cartas, poemas, ensaios, entre outros, criticam a condição da mulher e o poder do patriarcado católico, enquanto denunciam situações relacionadas à repressão ditatorial e as injustiças da guerra colonial portuguesa.
Como era de esperar, o livro "caiu nas graças” da censura do regime, sendo os textos considerados “imorais” e “pornográficos”. As autoras foram chamadas a julgamento, contudo, devido à repercussão internacional do caso, este foi sendo, constantemente, adiado. Após a Revolução dos Cravos, a sentença, finalmente, é apresentada e as escritoras são ilibadas.
Após 50 anos do lançamento do livro, o coletivo artístico Os Possessos, decide homenagear aquela que é considerada a “primeira causa feminista internacional”, apresentando-nos a história, adaptada para palco, por Catarina Rôlo Salgueiro e Leonor Buescu, com as interpretações de Ana Baptista, Catarina Rôlo Salgueiro e Rita Cabaço.
Um espetáculo com uma mensagem muito forte, apresentada de forma clara e emotiva, utilizando elementos e perspetivas cénicas muito interessantes. Este, é um daqueles espetáculos que o tempo passa a correr de tão ligados que estamos na história a ser contada que, tendo oportunidade, voltaria a ver como muito gosto.
Quero realçar que a imagem de ver o Teatro Académico Gil Vicente quase cheio, num dia tão especial como é o 25 de abril, foi das cenas mais bonitas que pude presenciar nos últimos tempos. VIVA A LIBERDADE!
Numa proposta de exposição performativa, projetada a partir da base pedagógica do Estado Novo, a Companhia Bandevelugo conduz-nos na ideia de explorar um museu, após a hora do seu fecho, de modo a desvendar os segredos que lá acontecem quando, normalmente, não estamos lá.
Em colaboração com vários artistas, estes confrontam-nos com obras críticas, que vão desde o Portugal, do Estado Novo, e a sua herança pedagógica, até aos dias correntes e a nossa extrema dependência da tecnologia e da sua evolução, principalmente, nas gerações mais novas, como a minha.
Um trabalho bastante interessante, com um tema atual, e a meu ver, importante a ser discutido. Em “produto bruto”, mostram-nos de qual direção a nossa sociedade veio e para onde se está a dirigir, fazendo-nos questionar se, realmente, é esse o caminho que queremos, ou se esse já está destinado, sem possibilidade de alteração.